"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2009/09/29

seminário ferrer y guàrdia -- 100 anos__08

A TRAJETÓRIA E O PENSAMENTO EDUCACIONAL DE FRANCISCO FERRER y GUARDIA

Aracely Mehl Gonçalves

O estudo da Pedagogia Libertária, utilizada pelos anarquistas, tem sido negligenciada vitima de preconceitos que remetem à palavra anarquia. [...] Francisco Ferrer y Guardia, o educador espanhol adotado pelos anarquistas, que mais teve suas idéias pedagógicas aplicadas em solo brasileiro, através da fundação das Escolas Modernas dirigidas por estes militantes durante a Primeira República.

Os aspectos educacionais que defendia são considerados modernos até em nossos dias, por serem críticos e procurarem formar homens e mulheres livres e capazes de desvelar a ideologia que os circunda.

O Estado reconheceu o perigo deste tipo de educação para a aceitação social da autoridade, e em 1909 Francisco Ferrer foi preso na Catalunha, Espanha, julgado por um conselho de guerra e executado.

[...]

Ao resumir o racionalismo pedagógico de Ferrer, a fim de facilitar as análises do leitor, este pensamento poderia ser apresentado desta maneira:

A educação é – e deve ser tratada como – um problema político crucial ( trata-se de ocupar o lugar que o poder hegemônico da burguesia exerce na escola);

O ensino será científico e racional ao serviço das verdadeiras necessidades humanas e sociais, da razão natural e não da razão atificial do capital e da burguesia;

Co-educação, pois a mulher e o homem completam o seu humano,

Co-educação de ricos e dos pobres;

Orientação anti e a - estatal da educação;

A importância do jogo no processo educativo;

Pedagogia, individualizada, sem competência técnica nem profissional;

Ausência de prêmio e castigos, supressão de exames e concursos (SOLÀ apud MORAES, p.22).

Devido a sua defesa da liberdade individual, seu pensamento anticlerical, a idéia de respeito ao diferente, a defesa do científico sobre o dogmático, a educação para todos, independentemente de classe ou sexo [...], o pensamento educacional de Ferrer foi adotado pelo movimento anarquista, o qual compactuava destes ideais e que se tornou um grande propagador das suas idéias em muitos países da Europa e, também, através do advento das imigrações para as Américas: no Brasil, Argentina e Estados Unidos da América.

Francisco Ferrer y Guardia foi o educador que mais teve suas idéias pedagógicas aplicadas em solo Brasileiro, através da fundação das Escolas Modernas em vários lugares do Brasil.

Os aspectos educacionais que defendia são considerados modernos até em nossos dias, por serem críticos e procurarem formar homens livres; o sujeito autônomo tão em voga nos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas governamentais atualmente.

Ferrer e os libertários no entanto, chamavam a atenção, já no final do século XIX e início do século XX da mentira que era esta escola governamental que diz pretender formar indivíduos livres, pois, para a classe dominante não há por que formar indivíduos com vontades próprias, questionadores, que construam seus próprios pensamentos e definam seus caminhos como queiram.

Ferrer não acreditava que a escola do governo fosse criar um modelo pedagógico que revolucionasse o sistema social e melhorasse as condições de vida dos trabalhadores. Esta escola iria sim ensinar os pobres a aceitar a estrutura social vigente, e ensinar que só se pode conseguir melhoramentos com o esforço próprio e dentro da classe social a que ele pertence.

Estes indivíduos foram e ainda são considerados uma ameaça ao sistema dominante vigente, que só conforma e forma os alunos de acordo com seus planos.

excerto da Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.30, p.39-58, jun.2008 - ISSN: 1676-2584

2009/09/27

seminário ferrer y guàrdia -- 100 anos

CEM ANOS SEM FERRER
16 e 17 de outubro de 2009
UFBa/ FACED/ Auditório II (Térreo)
Vale do Canela/ SSa./Ba.
:-:-:

FERRER & A ESCOLA RACIONALISTA
José Damiro Moraes*
Para Ferrer, a criança deve ser o centro do processo educacional e o professor tem a tarefa de problematizar a realidade, conjugando teoria e prática - esta identificada com o trabalho manual.

Meninos e meninas devem estudar na mesma sala (proposta ousada para a época), assim como ricos e pobres. A educação não pode se eximir de sua responsabilidade política, conscientizando os alunos para valores humanitários e antiestatais do anarquismo.

Mais do que pôr em xeque a pedagogia tradicional, esses princípios soavam como uma afronta ao poder constituído. As teorias de Francisco Ferrer y Guardia despertaram a ira da Igreja e do governo espanhol. Ele foi preso, e de nada adiantaram os protestos pela sua libertação: acabou fuzilado em 1909.

Os currículos das escolas anarquistas brasileiras estavam em sintonia com a proposta racionalista de Ferrer. Privilegiavam a leitura, a caligrafia, a gramática, aritmética, a geografia, a botânica, a geologia, a mineralogia, a física, a química, a história e o desenho. Também incluíam sessões artísticas e conferências científicas.

Para além da sala de aula, os alunos participavam de eventos operários, principalmente em datas consideradas importantes pelos anarquistas, como 18 de março - data da Comuna de Paris, insurreição popular que 1871 gerou o primeiro governo operário da História -, 1º. de maio - em memória da execução dos "mártires de Chicago" (1886), operários que pediam a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias - e 13 de outubro, data do fuzilamento de Ferrer.

Assim a escola aproximava alunos, famílias e sindicatos, mantendo viva a memória e a necessidade das lutas proletárias. O esforço educativo desses grupos resultou também na fundação de bibliotecas, centros de estudos, centros de cultura e grande circulação de periódicos.

* fragmento do artigo À escola, Anarquistas!, de José Damiro Moraes e publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 4. Nº. 47, Agosto de 2009.

2009/09/24

proudhon --- bicentenário

FEDERAÇÃO OU BARBÁRIE*
Paulo-Edgar Almeida Resende
e Edson Passetti


Após descrer das virtudes do poder político e negar a política como forma de liberação social, Proudhon irá recuperá-la, redefini-la, subordiná-la à organização industrial.

Ao mutualismo no nível econômico corresponde o federalismo no nível político.

A reintrodução da política no movimento de seu pensamento não altera a afirmação da autonomia com base no primado do trabalho.

Afirmada a economia mutualista de modo substantivo, adjetiva-se a política: os direitos políticos se atrelam aos direitos econômicos do trabalho coletivo. O pluralismo no nível econômico é ratificado pelo federalismo.

Abolida a estrutura hieráquica, as comunas, as unidades federadas são assumidas como núcleos de vigor próprio, e não como sucursais da matriz estatal; passam a ter, assim, direito de se administrar, de se governar, de estabelecer taxas, de dispor de recursos, de criar escolas, de escolher os professores, de se autopoliciar, de ter seus juízes, seus jornais, suas reuniões, suas sociedades particulares e inclusive de fazer suas próprias leis.

A federação não centraliza, pois não é um ponto de partida da unidade, da articulação das províncias, das comunas, mas um ponto de chegada. A vida da federação está na diversidade e na autonomia das unidades federadas. Não é a uniformização, a reconciliação total, mesmo porque, para Proudhon, isso significa o imobilismo.

A autoridade federal, portanto, carece de poder político, pelo menos no sentido clássico, embora seja chamada ao exercício de determinadas funções no lugar em que se articulam os múltipos interesses coletivos.

Tudo ocorre de modo seriado, e não por relações de influência e por continuidade. Entendidas assim as relações sociais, política é colocada em plano inferior, quando não sob suspeita de disfarce; a série autoridade busca obstruir o fluxo da liberdade. É a ilusão de caminharmos para mais infinito, quando sob ela caminhamos para menos infinito.

A liberdade, em conseqüência, não pode ser reconhecida como parte tolerável da autoridade, mas deve refazer a autoridade, buscando minar suas fontes de poder institucionalizado.

* um pequeno fragmento da introdução ao livro "Proudhon" -- POLÍTICA -- Coleção Grandes Cientistas Sociais, de Paulo-Edgar A. Resende e Edson Passetti (orgs.); Editora Ática; 1986; São Paulo

2009/09/23

visões antropofágicas

OS PARASITAS JÁ ESTÃO NAS RUAS

el__brujo

Os velhos (e também os novos) parasitas já estão em campanha político-eleitoral: ocupando todos os espaços possíveis (reais e virtuais) para colocarem suas diabólicas “caretas” em evidência e tornarem-se notícia nos fluxos midiáticos de informações, pouco importa se como notícia nova ou requentada.

Temos o fhc defendendo, mais uma vez, a despenalização dos usuários de drogas ilícitas como solução para o problema da violência urbana. E o lula, reportando, pela enésima vez, sobre à surrada bolsa família como solução de todos os males da nossa gente tão amada e gentil...

E nós com isso... pois já encontramos o nosso lugar neste processo de domesticação das rebeldias transformadoras, qual seja, seguirmos circulando pelos labirínticos corredores do consumo de quinquilharias multicoloridas, que são desprovidas de qualquer utilidade prática ou pública.

E esse caminhar nos faz recordar as assustadoras "sombras" deslizando ao fundo, como na "caverna" de Platão em busca de uma verdade que nos faça saborear a sensação de pertencimento a algum "clã", "tribo" ou "grupo".

Mas encará-la de frente, jamais! Pois são de grande significância para os bolsos dos "donos do poder", visto que as referidas quinquilharias já nascem condenadas a uma rapidíssima degenerescência para assegurar o movimento ad infinitum da roda da fortuna.

Referendando, com este círculo vicioso de consumismo desnecessário aliado a degenerescência previsível desses bens consumo, a concentração de capital nas mãos de um pequeníssimo grupo de exploradores do trabalho alheio, bem como de seus sonhos e desejos mais íntimos.

2009/09/19

seminário ferrer y guàrdia -- 100 anos

- SEMINÁRIO -
CEM ANOS SEM FERRER
Estamos chegando à reta final, pois já temos a data agendada (16 e 17 de outubro de 2009) e o local [UFBa/ FACED/ Auditório II (Térreo) no Vale do Canela/ SSa./Ba.] confirmado para a realização do "nosso" SEMINÁRIO sobre FERRER & A ESCOLA MODERNA.
Escola esta fundada em 1901 por Francisco Ferrer i Guardia na Espanha, notável educador e pedagogo, defensor dos ideais anarquistas, e que com a sua proposta educativa da Escola Moderna visava transformar o sistema educativo segundo métodos racionalistas e científicos.

¨*¨
COM A PALAVRA FRANCISCO FERRER Y GUÀRDIA:

Educar equivale atualmente a domar, adestrar, domesticar. Não creio que os sistemas empregados tenham sido combinados com exato conhecimento de causa para obter os resultados desejados, pois isto suporia gênio; mas as coisas acontecem como se essa educação respondesse a uma vasta percepção de conjunto realmente notável: não se poderia ter feito melhor.

Para realizá-la inspiraram-se sensivelmente nos princípios de disciplina e de autoridade que guiam os organizadores sociais de todos os tempos, que não têm mais que uma idéia bem clara e uma vontade, a saber, que a criança habituem-se a obdecer, a crer e a pensar segundo os dogmas sociais que nos regem.

Isto posto, a educação não pode ser mais do que o é hoje [1912]. Não se trata de acompanhar o desenvolvimento expontâneo das faculdades da criança, de deixá-la buscar livremente a satisfação de suas necessidades físicas, intelectuais e morais; tratá-se de impor pensamentos feitos; de impedi-la para sempre de pensar de maneira diferente da necessidade para a conservação das instituições desta sociedade; de fazer dela, em suma, um indivíduo estritamente adaptado ao mecanismo social.

[...]

Não tememos dizer: queremos homens capazes de destruir, de renovar constantemente os meios e a si mesmos; homens cuja independência intelectual seja a força suprema, que jamais sujeitem-se a nada; dispostos sempre a aceitar o melhor, desejosos do triunfo das idéias novas e que aspirem a viver múltiplas vidas em uma única.

A sociedade teme tais homens: não se pode, pois, esperar que queira jamais uma educação capaz de produzir-los.

[...]

Para isto, substituirá o estudo dogmático pelo estudo racional das ciências naturais.

[...]

A missão da Escola Moderna consiste em fazer com que os meninos e meninas a ela confiados chegem a ser pessoas instruídas, verdadeiras, justas e livre de preconceitos...

2009/09/17

proudhon --- bicentenário

PIERRE-JOSEPH PROUDHON


-- 200 ANOS --

Marreta

Comemoram-se [...] os 200 anos do nascimento [15/ janeiro/ 2009] de um homem revolucionário e ímpar, que pautou a sua vida por um objectivo altamente digno e meritório: tornar a humanidade mais justa e solidária.

Pierre-Joseph Proudhon, considerado o pai do anarquismo, ou pelo menos o primeiro a assumir-se literalmente como um anarquista convicto, nasceu a 15 de Janeiro de 1809, em Bensançon, França e morreu em 19 de Janeiro de 1865, em Paris.

Filho de uma família muito pobre, foi pastor [de ovelhas] enquanto criança, tendo posteriormente trabalhado numa tipografia onde entrou em contacto com liberais e socialistas utópicos, correntes que marcavam a política da sua época. Foi ao tempo que conheceu Charles Fourrier que viria a influenciar decisivamente as suas ideias.

Em 1838, já depois de ter saído da faculdade, publicaria aquela que é considerada a sua obra mais emblemática: “O que é a propiedade?”. Nela Proudhon critica a propriedade privada, argumentando que a exploração da força de trabalho de um semelhante era um roubo e que cada pessoa deveria gerir os meios de produção de que se utilizasse.

Em 1842 lançou algumas teses em Avertissement aux propriétaires (Advertência aos proprietários) e foi processado. No entanto acabou por ser absolvido, pois os juízes declararam-se incompetentes para julgá-lo.

Depois disso foi para Lyon, onde se empregou no comércio. Nesse período entrou em contato com uma sociedade secreta que defendia uma doutrina segundo a qual uma associação de trabalhadores da nascente indústria deveria administrar os meios de produção. Com isso esperavam transformar as estruturas sociais, não pela atração econômica mas pela revolução violenta.

Em Paris, Proudhon conheceu Karl Marx e outros revolucionários, como Mikhail Bakunin.

Em 1846 escreveu Système des contradictions économiques, ou philosophie de la misère (Sistemas de contradições económicas ou filosofia da miséria), onde criticou o autoritarismo comunista e defendeu um estado descentralizado.

Marx, que admirava Proudhon, leu a obra, não gostou, e respondeu a Proudhon em 1847 com Misère de la philosophie (Miséria da filosofia), decretando o rompimento de relações entre ambos.

Proudhon participou na Revolução de 1848 em Paris. Entre 1849 e 1852 ficou preso por causa das suas críticas a Napoleão III. Em 1851 escreveu Idée générale de la révolution au XIX siècle (”Ideia geral de revolução no século XIX”), que colocava a visão de uma sociedade federalista de âmbito mundial, sem um governo central, mas baseada em comunas autogeridas.

Depois de publicar, em 1858, De la justice dans la révolution et dans l’église (”A justiça na revolução e na igreja”), obra totalmente anticlerical, passou a viver sob vigilância da polícia, o que o levou a exilar-se em Bruxelas. Em 1864 voltou a Paris e publicou Du Principe fédératif (”Do princípio federativo”), uma síntese das suas concepções políticas.

As ideias de Proudhon espalharam-se por toda a Europa, influenciando organizações de trabalhadores e os mais fortes movimentos sindicais que se manifestaram na Rússia, Itália, Espanha e França.

[…] “O anarquista imagina uma sociedade na qual as relações mútuas seriam regidas não por leis ou por autoridades auto-impostas ou eleitas, mas por mútua concordância de todos os seus interesses e pela soma de usos e costumes sociais – não mobilizados por leis, pela rotina ou por supertições – mas em contínuo desenvolvimento, sofrendo reajustes para que pudessem satisfazer as exigências sempre crescentes de uma vida livre, estimulada pelos progressos da ciência, por novos inventos e pela evolução ininterrupta de idéias cada vez mais elevados. Não haveria, portanto, autoridades para governá-la. Nenhum homem governaria outro homem [...] – Proudhon


http://marreta.wordpress.com/2009/01/15/pierre-joseph-proudhon-200-anos/

2009/09/15

seminário ferrer y guàrdia -- 100 anos

Francisco Ferrer (1859-1909) nasceu em Barcelona, numa família de camponeses católicos. A educação religiosa e autoritária que ele sofreu na escola de sua aldeia gera em seu coração uma revolta que permanecerá sempre vivaz: "Eu só tinha" diria posteriormente, "de fazer o contrário do que vivi".

É sucessivamente fazendeiro, empregado numa fábrica de tecidos em Barcelona – onde é tocado pelas idéias anarquistas disseminadas entre o proletariado da cidade catalã – e ferroviário; milita no movimento republicano e anticlerical. Tendo participado de uma manifestação contra a monarquia em 1886, é obrigado a expatriar-se e se junta em Paris aos meios anarquistas.

É ali que se afirma sua vocação pedagógica ao dar aulas particulares de espanhol para sustentar sua família. Publica inclusive um tratado de espanhol prático. Milita igualmente no movimento maçônico. Viaja pela Itália, Suíça e Bélgica interessando-se por todas as experiências de inovação pedagógica. Munido dessa bagagem e à frente de uma herança considerável deixada por uma admiradora, retorna à Espanha em 1901, e decide fundar a "Escola Moderna" com a qual sonha.

Para isso, deve vencer muitas prevenções e resistências; mas sua tenacidade supera todos os obstáculos. O sucesso ultrapassa todas as expectativas: em 1908 há dez "escolas modernas" em Barcelona, quase cento e cinqüenta na Catalunha, estabelecimentos em Madri, Sevilha, Granada, Cádis... Sua irradiação ultrapassa as fronteiras da Espanha e escolas Ferrer são fundadas em Portugal, no Brasil, Suíça e Holanda.

A escola moderna é mista e aberta a todos os meios (conquanto paga, o preço da pensão varia em função da renda dos pais); ela é laica e bane todo ensino religioso. Enfim, é também racional e científica.

Dotada de uma biblioteca, de uma tipografia, de um serviço de edição que publica manuais e obras pedagógicas, ela aparece como um foco intenso de cultura popular. Ferrer quer que ela seja um instrumento de emancipação e propagação das idéias libertárias diante do "adestramento" do ensino oficial de educação, "poderoso meio de subjugação nas mãos dos dirigentes", que habitua as crianças "a obedecer, a crer, a pensar segundo seus dogmas sociais que nos regem".

Para ele, o ensino deve ser uma força a serviço da mudança: "queremos homens capazes de evoluir incessantemente, capazes de destruir, renovar constantemente os meios e renovar-se a si mesmos".

Assim, o principio fundamental da Escola Moderna é a liberdade da criança; ela esforça-se para respeitar seu movimento natural, sua espontaneidade, as características de sua personalidade; quer desenvolver sua independência, seu juízo, seu espírito critico; "prefiro", diz Ferrer, "a espontaneidade livre de uma criança que não sabe nada, à instrução de palavras e à deformação intelectual de uma criança que sofreu a educação atual".

Inspirando-se na educação integral de Robin, dá um amplo espaço às atividades físicas e manuais. Sua pedagogia não apela nem para a coação, nem para a competição: "na escola moderna não há recompensa nem castigo" (...) também não há exames para inflar algumas crianças com o título lisonjeiro de "excelentes", distribuir a outros o título vulgar de "bons" e rejeitar o resto na consciência desafortunada da incapacidade e do fracasso.

Ao lado da experiência pedagógica da escola moderna, Ferrer esforça-se para dar uma vasta difusão às idéias que o animam e para coordenar os esforços conduzidos em diferentes países. Foi assim que em 1908 foi criada uma revista internacional L'École Rénovée, na qual são discutidas "todas as idéias e todas as tentativas que concernem à renovação da escola" e onde se encontra, além da assinatura de Ferrer, a de Kropotkin, Robin, Domela Nieuwenhuis, Ellen Key, Willian Heaford e a maioria dos pedagogos libertários da época.

Ao mesmo tempo, ele quer dar uma audiência internacional à liga da educação libertária de Robin e suscita a organização de uma liga para a educação racional da infância cujos objetivos são: dar ao ensino uma base científica e racional, defender a idéia de uma educação completa e harmoniosa, englobando "a formação da inteligência, o desenvolvimento do caráter, a cultura da vontade, a preparação de um ser moral e físico bem equilibrado" e assentar a pedagogia sobre um conhecimento da psicologia da criança.

Como a de Robin, a obra de de Ferrer chocou-se contra vivas resistências e sofreu ataques violentos. Ele próprio foi preso pela primeira vez em 1906, mas absolvido. Em 1909, momento de grande efervescência na Catalunha é novamente detido, julgado a portas fechadas por um conselho de guerra, condenado à morte e executado; seu ultimo grito é: "viva a escola moderna".

Sua morte provoca uma profunda emoção pelo mundo, em todos os meios da pedagogia libertária, na medida da influência que ele tinha exercido.


Referência Bibliográfica:

SAFÓN, Ramón. O racionalismo combatente de Francisco Ferrer Y Guardia. Imaginário. São Paulo. 2003.

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*16 de março de 2006.


http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/textos/548.htm

2009/09/13

extraindo conceitos


PROUDHON: AUTOGESTÃO & AUTONOMIA*

Fernando C. Prestes Motta


Os ideais de participação estão firmemente ancorados em idéias bastantes antigas que remontam ao socialismo utópico do século passado [séc. XIX]. De certa forma, essa corrente filosófica constitui a resposta intelectual à situação nova criada pela revolução industrial.

Dentre os socialistas utópicos e libertários mais relevantes, quando se considera as origens das propostas participativas, estão certamente Robert Owen (1771- 18580, Charles Fourier (1772- 1837), Louis Blanc (1811- 1858), Phillippe Buchez (1796- 1865) e Pierre-Joseph Proudhon (1809- 1865).

[…]

De todos esses intelectuais, o único proletário, Proudhon era um autodidata. Tipógrafo, era filho de pai toneleiro e mãe camponesa. Foi também, dentre eles, o único a desenvolver uma crítica econômica e política sistematizada da sociedade capitalista e a propor um sistema complexo da sociedade autogerida.

Proudhon entendia que o capitalismo era um sistema impulsionado por determinadas contradições internas responsáveis pela passagem de um estágio de anarquia negativa, para um estágio de feudalidade industrial (capitalismo oligopólio). Entendia, também, que esse estágio deveria evoluir para o império ou Estado industrial (capitalismo de estado) e que, finalmente, o sistema seria destruído, dando lugar à anarquia positiva ou democracia industrial, que seria a sociedade socialista autogestionária.

Entendia que na nova sociedade as empresas industriais seriam autogeridas e de propriedade coletiva dos trabalhadores. Essas empresas que chamava de companhias operárias, deveriam federar-se a uma Federação da Indústria.

Entendia que a agricultura deveria ser mutualizada, isto é, pensando na França de seu tempo, via as pequenas propriedades familiares organizadas em comunas rurais. Essas comunas rurais deveriam se federar numa Federação Agrícola.

Federação Agrícola e Federação Industrial formariam uma Federação Agro-Indústria. Esta, numa organização que incluiria produtores e consumidores, daria origem ao Sindicato da Produção e do Consumo, responsável pelas estatísticas econômicas e pela organização do comércio e dos serviços.

No sistema de Proudhon não há lugar para o Estado [centralizador, coercitivo, assistencialista, previdenciário, intervencionista, etc.] como o concebemos, mas existe o projeto de uma organização política altamente descentralizada, cujos órgãos de base são os grupos naturais, isto é, grupos funcionais e territoriais. O que Proudhon propõe é um sistema de coordenação em oposição a um sistema de autoridade, que lembra bastante o discurso autonomista de nossos dias.

*fragmentos do ensaio “Alguns Percursores do Participacionismo”, autoria de Fernando C. Prestes Motta, e publicado in: Participação e Participações (Ensaios sobre Autogestão), de Roberto Venosa (org.), Editora Babel Cultural, São Paulo, 1987.


2009/09/11

proudhon --- bicentenário



É espantoso que se conheça do pensamento proudhoniano pouco além do slogan “a propriedade é o roubo!” Não obstante ter recebido de Marx o enfático elogio que o celebrou “como o pensador francês mais arrojado” e conferiu à sua obra O que é a Propriedade? a mesma importância atribuída à obra de Sièyès, O que é o Terceiro Estado?, Proudhon permaneceu historicamente um célebre desconhecido.

Até a 1ª Internacional e a Comuna de Paris, Proudhon exerce forte influência sobre os operários, artesãos e communards; mas em seguida é vencido pelo bakuninismo. Bakunin legou para a posteridade a leitura hegeliana que classificou Proudhon de “pré-anarquista” e que qualificou seu pensamento de metafísico e desprovido da cientificidade exigida pela revolução. Face ao revolucionarismo bakuninista, Proudhon é retratado como a criança rebelde do socialismo.

Foi com o declínio do hegelianismo e com a ressurgência de Nietzsche, a partir dos anos 1990, que um forte interesse renovado pela obra de Proudhon se fez presente, nutrido sobretudo pelas filosofias de Foucault e Deleuze.

Esta retomada de Proudhon reflete uma renovação sem precedentes do próprio anarquismo, restituindo a força da sua crítica na atualidade e estabelecendo novos percursos de estudos.

É neste contexto de redescoberta e renovação da obra de um dos autores seminais da anarquia que o CCS propõe neste seminário pensar sua atualidade no ano de seu bicentenário; dando continuidade, com isso, ao ciclo de estudos iniciados em 2008 com as Oficinas Libertárias: Proudhon.
Nildo Avelino
coordenação
Programa:
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12/09/2009, 16:00h, abertura: Proudhon nas dobras do milênio,
com Paulo-Edgar Almeida Resende (Doutor em Ciência Política, professor na Faculdade e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP onde é coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional (NACI), co-organizador, juntamente com Edson Passetti, do volume Proudhon – Coleção Grandes Cientistas Sociais [São Paulo: editora Ática, 1994]).

19/09/2009, 16:00h: Anarquia, num encontro com Proudhon e Deleuze,
com Natalia Montebello (Doutoranda em Ciência Política pela PUC-SP, professora na ESPM, integrante do CCS).
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26/09/2009, 16:00h: A miséria ou o antifilosófico em Proudhon,
com Edson Lopes (Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, autor de Política e Segurança Pública: uma vontade de sujeição [Rio de Janeiro: editora Revan, no prelo], integrante do CCS).

17/10/2009, 16:00h: Proudhon, Foucault e a (an)arqueologia dos saberes,
com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política pela PUC-SP, autor de Anarquistas: ética e antologia de existências [Rio de Janeiro: Achiamé editor, 2004], integrante do CCS)

24/10/2009, 16:00h: encerramento: Proudhon e a (pós)modernidade: reflexões im-pertinentes,
com Jacy Seixas (Doutora em História, professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da UFU-MG, autora de Mémoire et oubli: l'Anarchisme et le Syndicalisme Révolutionnaire au Brésil [Paris: éditions de la Maison des Sciences de l'Homme, 1992], integrante do CCS).
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Realização:
Centro de Cultura Social de São Paulo
Rua Gal. Jardim n.º 253 – sala 22 (metrô república).