"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."
emma goldman
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2009/02/26
2009/02/24
pipoca & celulóide

“Mais vale pobres na mão do que pobres roubando”
Felipe Silva*
Certa vez, ouvi no rádio um comentarista político, um tanto conhecido aqui no Brasil, usar um termo muito curioso para se referir a condição histórica de corrupção na política brasileira: a “inércia histórica”. Talvez possamos chamar também de “inércia social”. É curioso esse termo, pois ele trata da união entre uma lei puramente física e um conceito sociológico.
A inércia é a conservação de um estado dinâmico de um corpo num sistema. Se algo está num dado estado dinâmico, seja de movimento ou de repouso, ele tende a ficar nesse estado se não houver razão suficiente alguma que o impeça, ou seja, se não houver nada opondo a manutenção, natural, desse estado dinâmico.
“Quanto vale ou é por quilo?” mostra exatamente essa “inércia social”. Sérgio Bianchi colocou em paralelo o período histórico brasileiro do fim do século XIX com o Brasil contemporâneo. O período final da escravidão negra brasileira e a atual situação da periferia nas grandes cidades.
São colocados à vista as grandes mazelas e contradições de um país em constante crise de valores morais. A sociedade é vislumbrada na óptica mercadológica. A relação econômica que contrapõe casa-grande e senzala é análoga a relação entre a elite econômica e os excluídos do subúrbio.
“Mais vale pobres na mão do que pobres roubando” é o slogan do filme. O trabalho de inclusão social praticado pela iniciativa privada é duramente criticado, pois o fim que tal iniciativa, aparentemente, visa sanar, a saber a igualdade social, é barrada pela própria lógica estrutural do sistema.
O mercado opera com a pobreza e a exclusão. A grande questão é que a democracia é o sistema político vivido no Brasil porque é o sistema do consumo, aquele que favorece melhor o liberalismo econômico.
A “inércia social” está no filme [para] retratar que a história brasileira não muda, ela está estática, barrada, bloqueada de transformação.
* Quanto vale ou é por quilo? (Dir. Sérgio Bianchi – 2005); 2 de Agosto de 2006
leia mais, saiba mais:
http://antoniofelipesilva.blogspot.com/2006/08/quanto-vale-ou-por-quilo-dir-srgio.html
2009/02/22
pipoca & celulóide
“Eu aprendi, a vida é um jogo, cada um por si,
e Deus contra todos”.
Nathália Geraldo
· Santos (SP) · 3/10/2008
A letra de “Homem Primata” da banda Titãs teria que ser reformulada, se fosse escrita hoje em dia, devido à nova onda de programas de responsabilidade social de empresas: Deus pode até estar contra todos, mas a propaganda empresarial, como se pudesse salvar o negro que sofre as conseqüências de uma abolição da escravatura mal-feita, diz que é “cada um por si, e o projeto de inclusão social por nós”.
Por nós, classe média, classe alta e classe baixa. Já que apoiar entidades assistencialistas garante nossa limpeza moral e alguns momentos de felicidade para os moradores de rua ou para pobres da periferia.

Porém, inevitavelmente, seguimos o conceito selvagem de “cada um por si”, visto que há um sistema econômico predominante no qual o consumo excessivo é incentivado e o individualismo é palavra de ordem. Esse é o discurso social lógico no qual os valores são flexíveis. E isso interfere nos atos de solidariedade, assunto do filme “Quanto vale ou é por quilo?”, de Sérgio Bianchi.
No filme, as personagens representam as classes sociais de onde partem, e por esse motivo, há relativização do que é certo ou errado. Assim, o “fazer o bem” tem significado diferente para as senhoras que ajudam nas ONGs e para o bandido que seqüestra um empresário, fazendo justiça social com as próprias mãos.
O motivo dessa variação de pontos de vista é contextualizado historicamente sendo apresentados casos do período escravocrata retirados do Arquivo Nacional (RJ). A intenção do diretor Sérgio Bianchi em dramatizar a História com atores que também representam as situações do mundo atual faz com que a comparação e a sensação de “nada muda no Brasil” sejam inevitáveis.
É assim que Sérgio Bianchi apresenta sua análise crítica em torno da relação pobre-responsabilidade social-boa imagem para a empresa ou para o indivíduo.

“Quanto vale ou é por quilo?” mostra como a sociedade brasileira, caracterizada pela transferência de responsabilidade do interesse público para o privado, torna mercadoria aquele que ajuda. A postura positiva para a obtenção de retorno. Em última análise, mostra a hipocrisia. A batalha entre minorias e maioria, sendo que os primeiros são domesticados por aqueles que são bons, por meio da filantropia.
O filme não ameniza os contrastes das classes sociais; as interliga em torno dos problemas sociais, formando núcleos que mantém o status quo de doar e receber. Marketing social, apoio do cliente-cidadão que, sem questionar, confia nos projetos sociais promovidos pelas empresas e uma possível teia de corrupção, são as respostas lucrativas que uma empresa do Terceiro Setor pode receber.
Os valores são altos, as festas que reúnem os grandes doadores, grandiosas, mas a exclusão social combatida é questão para o mundo virtual, onde se torna um espetáculo a miséria de qualquer canto.
leia mais, saiba mais:
http://www.overmundo.com.br/overblog/analise-do-filme-quanto-vale-ou-e-por-quilo