"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2010/11/06

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mesmo com um atraso de três meses, achamos importante informar a morte da militante anarquista que viveu a sua vida na prática da ação direta e das idéias libertárias!
Trata-se, pois, da "compa" Nair Lazarine Dall’Oca (23 de abril de 1923 ~ 20 de agosto de 2010).
Se assim o fazemos é por acreditar que não devemos nunca deixar a memória do movimento anarquista cair no esquecimento...
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Nair Lazarine Dall’Oca nasceu em 23 de abril de 1923, em Araçatuba, filha de Carmino Lazarine e Rosa Furlan (ambos brasileiros de Ribeirão Preto), um modesto casal que teve 7 filhos. O pai de Nair, além de marceneiro, também lecionou na escola rural, onde ela estudou durante três anos.

Casou-se com Virgilio Dall’Oca e ambos mudaram-se para São Paulo, para viverem com os tios de Virgilio, Aída e Nicola D’Albenzio, ambos anarquistas. Nicola D’Albenzio, então ativo militante da Federação Operária de São Paulo (F.O.S.P.), aos poucos desperta o interesse do jovem casal pelas idéias libertárias.

Por volta de 1936, o casal conheceu o Centro de Cultura Social de São Paulo, com sede na avenida Rangel Pestana, nº 251 (antiga Ladeira do Carmo, nº 9), que na época contava com muitos sócios e freqüentadores, inclusive muitos espanhóis que viriam para São Paulo, após a implantação da ditadura de Franco na Espanha.

Nair trabalhou como costureira, Virgilio trabalhou como servente de pedreiro, cobrador de ônibus, motorista de caminhão e, por fim, taxista.

A difícil condição econômica do casal, não os impediu de contribuir financeiramente em inúmeras campanhas de solidariedade, como por exemplo, no apoio aos refugiados anarquistas durante o final da guerra civil espanhola (1939), organizado pelos anarquistas brasileiros respondendo ao apelo do jornal Tierra y Libertad.

Após a implantação do estado novo em novembro de 1937, o Centro de Cultura Social foi obrigado a fechar sua sede. Os anarquistas que desde o início da ditadura de Getúlio Vargas, vinham disputando o espaço nos sindicatos com os reformistas, perdem seu principal campo de atuação.

É neste contexto social, que um grupo de anarquistas, em sua maioria vegetarianos e naturistas, vai desenvolver um projeto de construção de uma chácara na cidade de Itaim, no interior do estado de São Paulo, que marcará um período completamente novo na trajetória do anarquismo brasileiro.

O grupo de voluntários anarquistas que comprou o terreno e que principiou o trabalho da construção da Nossa Chácara era composto inicialmente por: Germinal Leuenroth, Nicola D’Albenzio, Virgilio Dall’Oca, Justino Salguero, Salvador Arrebola, Antônio Castro, João Rojo, Benedito Romano, José Oliva Castillo, Roque Branco, Antônio Valverde, Cecílio Dias Lopes e Lucca Gabriel.

Sempre acompanhado de seus familiares.

A Sociedade Naturista Amigos da Nossa Chácara, foi registrada em 9 de novembro de 1939, e mesmo após a reabertura do Centro de Cultura Social [são paulo] em 9 de julho de 1945, a Nossa Chácara continuou sendo palco (além de inúmeras confraternizações) de congressos libertários nacionais e reuniões clandestinas, que foram essenciais e possibilitaram a reorganização do movimento anarquista brasileiro, que havia passado pelo difícil período repressivo da ditadura Vargas.

O casal Dall’Oca e o grupo pioneiro da Nossa Chácara, além das doações financeiras, prestaram inúmeras contribuições em trabalho pesado e sofrido, que tornaram-se de valor incalculável devido aos benefícios coletivos que proporcionaram.

Com a mesma importância, Aída D’Albenzio e Nair Dall’Oca, muitas vezes, foram as principais responsáveis pela alimentação de todos que freqüentavam a Nossa Chácara.

Quando surgiram os jornais “O Libertário” (outubro de 1960) e “Dealbar” (setembro de 1965), apesar de não escrever artigos, o casal Dall’Oca contribuiu financeiramente para ambos e ainda colaborava na distribuição.

O casal também contribuiu com a Editora Mundo Livre do Rio de Janeiro, que chegou a publicar os seguintes livros anarquistas:

“O Retrato da Ditadura Portuguesa” de Edgar Rodrigues (1962),

A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos” de José Oiticica (2ª Edição - 1963),

Anarquismo – Roteiro de Libertação Social” de Edgard Leuenroth (1963),

O Humanismo Libertário e a Ciência Moderna” de Pedro Kropotkine (1964) e

Erros e Contradições do Marxismo” de Varlan Tcherkesoff (1964).

Após a implantação da ditadura militar no dia 1º de abril de 1964, a Sociedade Naturista Amigos da Nossa Chácara, resolveu vender sua propriedade no Itaim, para comprar um sítio, em Mogi das Cruzes, que seria mais apropriado para a continuação do projeto libertário.

A campanha pró-compra do sítio foi iniciada em 28 de agosto e 1965, e foi concluída em 31 de dezembro de 1966. Na lista de pessoas que contribuíram financeiramente para a compra do Nosso Sítio, consta os nomes dos Dall’Oca, inclusive da filha Clara.

No início de 1969, o Centro de Cultura Social [são paulo] fecha a sua sede, inclusive, por uma questão de segurança.

O perigo pressuposto pelos anarquistas paulistas, será corroborado durante os dias 8 e 21 de outubro de 1969, quando o Centro de Estudos Professor José Oiticica (C.E.P.J.O.), dos anarquistas do Rio de Janeiro, foi invadido e assaltado pelos militares da aeronáutica e seus membros foram processados, presos e alguns, inclusive, torturados fisicamente.

Durante esse período, os militantes paulistas se organizaram e arrecadaram dinheiro anonimamente (por precaução), para ajudar nos custos do processo militar instaurado contra os anarquistas do Rio de Janeiro que durou até 1972. Foi uma grande demonstração de solidariedade militante, e a família Dall’Oca estava presente para contribuir com a campanha.

Após ter morado alguns anos em Itanhaem, a família Dall’Oca fixou residência na cidade de Santos.

Nair Lazarine Dall’Oca faleceu no dia 20 de agosto de 2010, aos 87 anos, devido uma parada cardíaca, sendo que sua saúde já estava bastante debilitada pelo mal de Alzheimer. Deixa esposo, filha e netos.

Apesar de nunca ter falado em público ou ter escrito textos, Nair foi uma militante sempre presente, que legitimou o anarquismo através da prática da ação direta.

Um comentário:

Reciclagem disse...

Gente, ficou muito bom agora!! Com as chamadas para outros canais de comunicação e não somente anarquista. Acho ótimo destacar os varios blogs, uma forma fácil de acessarmos e conhecer outras páginas. Sem falar do dicionário de português, beleza. Parabéns, gente!!