2009/12/01

por e-mail__10


"Eu queria captar o clima do Brasil contemporâneo, onde nem tudo são perfumes. Há nos ares deste país cheiros ruins que sentimos todos os dias."

João Silvério Trevisan

2009/11/23

extraindo conceitos__19

O inimigo está aí:

é o Estado

Camilo Berneri,

(Pagine Libertarie,

Milão, 20 de novembro de 1922)

“O inimigo está aí: é o Estado. Mas o Estado não é somente um organismo político, um instrumento de conservação das desigualdades sociais; é também um organismo administrativo.


Como estrutura administrativa, o Estado não pode ser abolido. Ou seja, é possível desmontá-lo e remontá-lo, mas não negá-lo, porque isso paralisaria o ritmo de vida da nação, que pulsa nas artérias ferroviárias, nas veias telefônicas, etc.


Federalismo! É uma palavra. É uma fórmula sem conteúdo positivo. O que nos oferecem os mestres? A premissa do federalismo: a concepção antiestatal, a concepção política e não a fundamentação técnica, o medo da centralização e não os projetos de descentralização.


Aqui está, ao contrário, um tema de estudo: o Estado em seu funcionamento administrativo. Aqui está um tema de propaganda: a crítica sistemática do Estado como órgão administrativo centralizado e, portanto, incompetente e irresponsável.


Cada dia a notícia de sucessos nos oferece assuntos para esta crítica: milhões desperdiçados em más especulações, em lentidões burocráticas; poeira nos ares por negligência dos gabinetes “competentes”; latrocínios em pequena e grande escalas, etc.


Uma campanha sistemática deste tipo poderia atrair sobre nós a atenção de muitos que não se comoveriam, em absoluto, lendo Deus e o Estado [de Bakunin].


Onde encontrar os homens que podem alimentar regularmente esta campanha? Os homens existem. É necessário que eles dêem sinais de vida. É necessária uma mobilização!


Profissionais, empregados, professores, estudantes, trabalhadores, todos vivem em contato com o Estado ou ao menos com as grandes empresas. Quase todos podem observar os danos da má administração: os desperdícios dos incompetentes, ou roubos dos preguiçosos, os empecilhos dos organismos mastodontes.

[...] Devemos voltar ao federalismo! Não para deitar no divã da palavra dos mestres, mas para criar o federalismo renovado e fortalecido pelo esforço de todos os bons, de todos os capacitados.”

http://www.anarkismo.net/article/13371

EXTRA:

"Ninguém devia temer seu governo. O governo é que deveria temer seu povo."

Alan Moore,

in V for Vendetta


“O rei está por toda parte. Que a luta já não se limita a um único front – o Estado –, mas que os fronts se multiplicaram ao infinito e estão também em nós.”

Félix Guatarri

2009/11/20

extraindo conceitos__18

- Bem sabes que o capital oprime o trabalhador.

Leon Tolstoi*

"Porque pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que governantes o farão não em proveito próprio, mas em proveito dos outros?"

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"- Bem sabes que o capital oprime o trabalhador.

Entre nós, os operários e os camponeses suportam todo o peso do trabalho, e as coisas estão feitas de tal maneira que por mais que trabalhem não conseguem passar de bêstas de carga.

Todos os benefícios, tudo o que permitiria ao trabalhador melhorar sua condição, ter descanso e por conseguinte tempo para instruir-se, todos êsses benefícios os capitalistas lhes roubaram.

A sociedade está organizada de tal maneira que quanto mais os operários trabalhem tanto mais amealharão os comerciantes e os donos da terra, continando aquêles a ser bêstas de carga.

É preciso modificar esta ordem de coisas..."

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visto que,

"A ciência, que devia ter por fim o bem da humanidade, infelizmente concorre na obra de destruição e inventa constantemente novos meios de matar o maior número de homens no tempo mais curto".

* ana karenina (romance), de leon tolstoi; p. 91; editora abril cultural; 1971; tradução de joão gaspar simões.

2009/11/18

por e-mail__09

A sementeira de idéias


Passados quase seis meses do falecimento do companheiro Edgar Rodrigues, ainda não está terminado o dimensionamento da importância de seu trabalho como pesquisador e militante do movimento libertário.


Um dos trabalhos que adiciona substância a essa empreita é o trabalho de pós-doutorado de Anna Gicelle Garcia Alaniz (Doutora em História Social pela USP e Pós-Doutora em Filosofia da Educação pela UNICAMP), para a faculdade de Educação da Universidade de Campinas (SP):


A Sementeira de Idéias – Edgar Rodrigues Uma Vida Dedicada A Memória Anarquista”,


transformado em livro (2009, 108p.) e editado por Achiamé Editor (RJ), que terá o lançamento no C.C.S.- São Paulo em 21 de novembro, na conferência:


“História e militância anarquista: uma homenagem à Edgar Rodrigues (1921-2009).


*#*

Centro de Cultura Social - SP


21/ nov./ 2009

às 16H00


Endereço

Rua General Jardim, 253 Sala 22

Vila Buarque São Paulo – SP

CEP 01213-010

Próximo ao metrô Republica


www.ccssp.org

2009/11/17

extraindo conceitos__17

o discurso do
burguês-empregador
em relação ao proletário
(o discurso não mudou até hoje)
mikhail bakunin


“(...) Vejam bem, eu tenho um pouco de capital, que por si só nada pode produzir, porque algo morto nada pode produzir.

Nada tenho de produtivo sem o trabalho. Assim sendo, não posso lucrar consumindo-o improdutivamente, uma vez que, consumindo-o, eu nada mais teria.

Porém, graças às instituições sociais e políticas que nos governam e que estão todas a meu favor, na atual economia meu capital também deve ser um produtor: ele me traz lucro.

De quem esse lucro deve ser tirado – e deve ser de alguém, uma vez que, na realidade, ele não produz absolutamente nada por si mesmo –, não interessa a você. É o bastante, para você, saber que ele gera lucro. Sozinho, este lucro não é suficiente para cobrir meus gastos.

Eu não sou um homem simples como você. Não posso estar, nem quero estar, contente com pouco. Eu quero viver, morar em uma bela casa, comer e beber bem, andar de carruagem, ter boa aparência, resumindo, ter todas as coisas boas da vida.

Eu também quero dar uma boa educação aos meus filhos, torná-los cavalheiros, e mandá-los estudar fora, e no fim das contas, tendo recebido muito mais educação que você, que eles possam dominá-lo algum dia, assim como eu o domino hoje.

E já que a educação por si só não é suficiente, quero deixar para eles uma grande herança, para que, dividindo-a entre eles, permaneçam quase tão ricos quanto eu”.

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Portanto,

"Será necessário repetir aqui todos os argumentos irrefutáveis do socialismo, que até agora nenhum economista burguês conseguiu contestar?

O que é a propriedade, o que é o capital em sua presente forma? Para o capitalista e para o detentor da propriedade, eles significam o poder e o direito, garantidos pelo Estado, de viver sem ter de trabalhar.

E, uma vez que nem a propriedade, nem o capital produzem qualquer coisa se não forem fertilizados pelo trabalho, isso significa o poder e o direito de viver à custa da exploração do trabalho alheio, o direito de explorar o trabalho daqueles que não possuem propriedade ou capital e que, portanto, são forçados a vender sua força produtiva aos afortunados detentores de ambos".

2009/11/15

extraindo conceitos__16

a proposta de Proudhon
por Fernando Cláudio Prestes Motta

Conclusão:

[...] o poder se apresenta historicamente sob forma de apropriação e que, no capitalismo moderno, essa apropriação se dá através da burocracia.

Além disso, vimos que a burocracia tende a assumir e conservar o monópolio da função de governo dos processos sociais essenciais, que ela pretende governar em nome das massas trabalhadoras, que ela expropria uma parte da mais-valia, sob forma de vários privilégios.

A teoria autogestionária de Proudhon é a negação desses processos; nela, a política torna-se governo do próprio povo e desaparece a apropriação econômica e política, que caracteriza o sistema burocrático.

As duas formas de opressão social, que negam a personalidade autônoma dos grupos sociais e a capacidade de autogestão da sociedade pluralista, são demonstradas por Proudhon:

1.- A propriedade capitalista, no seu fundamento social, aparece como uma usurpação da força coletiva e, nas suas conseqüências sociais, como uma usurpação da produção social.

2.- O Estado, apesar de sua complexidade maior, vai apresentar características semelhantes. Ele se as atribui pela fixação de um governo considerado como uma representação exterior da força social, como uma concentração única e hierárquica, que se revela praticamente como um instrumento de dominação, como um monopólio de poderes, como um aparelho repressivo.

A autogestão é a negação da burocracia e da heterogestão que separa artificiamente uma categoria de dirigentes de uma categoria de dirigidos. A autogestão libera a sociedade real das ficções a que se acha submetida.

A proposta teórica de Proudhon, produzida no século passado [XIX], é porém, apenas um marco sobre o qual se pode imaginar as condições efetivas de autogestão, bem como as formas que ela poderá assumir em sociedades contemporâneas.

A importância do trabalho de Proudhon permanece, portanto, como indicador de uma forma de organização social que respeita a liberdade e o pluralismo. Permanece como possibilidade de se ver a organização econômica e política não de cima para baixo, mas, ao contrário, a partir das massas.

A criação de uma sociedade autogestionária não é uma utopia, já que não se trata de uma impossibilidade. Trata-se, isto sim, de algo que incomoda profundamente os detentores do poder.

Em uma sociedade autogestionária não há lugar para burocratas. A proposta autogestionária traz a incerteza para um mundo onde quase todos buscam a certeza.

Esta é a razão pela qual as experiências plenamente autogestionárias não puderam se manter. Enquanto as ideologias do poder procuram ocultar as múltiplas alienações do homem moderno, a proposta autogestionária surge como denúncia, como possibilidade real e radical de transformação social.

Nessa possibilidade está sua grande dificuldade de operacionalização, já que a razão que a sustenta é o contrário da razão do poder.

in:

BUROCRACIA E AUTOGESTÃO (a proposta de Proudhon), de Fernando Claúdio Prestes Motta; editora brasiliense; 1981

extra:

"A burocracia é o principal elemento de um sistema antagônico. Onde existe antagonismo, existe burocracia"
Fernando Prestes Motta

"A educação moderna convencional muito raramente se preocupa com o desenvolvimento da pessoa. Opta, normalmente e com a cumplicidade dos pais ansiosos por filhos bem-sucedidos na "vida", pelo desenvolvimento funcional ou profissional, exacerbando a angústia do adolescente. As instituições educacionais e, de modo especial, a universidade, nasceram como um espaço no qual o mestre formava seus discípulos através da convivência diária. Esse espaço tornou-se uma grande burocracia impessoal em que a convivência é meramente funcional. Busca-se formar boas engrenagens, no melhor dos casos, e não pessoas adultas, maduras individual e socialmente"
Fernando Prestes Motta

"A vida pulsa no sonho, a vida pulsa no mito, a vida pulsa vigorosa na mão daqueles que a reescrevem. O que somos, e, portanto, e muito provavelmente, o que seremos, ganham sentido quando podemos decifrar os grupos, as organizações e as coletividades em geral e, para tanto, é necessário desenvolver percepção, reflexão e capacidade de análise crítica."
Fernando Prestes Motta

2009/11/13

por e-mail__08

Não há Estado democrático de direito sem miséria e tortura. Não há banalização da tortura, pois todo saber jurídico penal exige a tortura para obtenção da verdade que lhe interessa.

Tudo o que se convencionou chamar de crime é político. Não há distinção entre o comum e o político: ambos expressam a realidade do regime da propriedade que, às vezes, é atingida nos seus poderes privado e público, e outras no corpo do próprio indivíduo, seja ele adulto, jovem ou criança.

Toda subversão é insuportável ao Estado. Toda subversão incita a liberdade e expõe assimetrias. Quando um povo está sob regime ditatorial, a subversão é a derradeira expressão de sua saúde.

No regime democrático de direito, os acomodados cidadãos preferem não ver, ouvir e falar sobre as torturas diárias que acontecem em prisões, delegacias, vielas, favelas, lares bem constituídos, escolas...

Querem fazer crer que com o fim das prisões políticas, só restaram torturadores em arquivos processuais ou na memória sempre viva de guerreiros da liberdade! O torturador é o vestígio impagável do fascismo. Este, por vezes, toma a forma de governo de Estado, e, na maioria das vezes, em conduta democrática dissimulada.

A noção de crime, a polícia, o tribunal e todo o aparato penal alimentam a continuidade dos dissimulados. Sustentam a necessidade da polícia, do tribunal e de todo aparato penal, azeitado pela tortura.Instaura-se um círculo vicioso em que todos devem acreditar, finalmente, no tribunal nacional e internacional.

Acreditam que pela punição se forjam valores universais de humanidade; que se corrigem as torturas pelas punições legais; e que, se necessário for, façam uso da pena de morte em nome do Estado democrático de direito e pelo bem da humanidade.

Todavia, antes de julgar um torturador, ou condenar sua impunidade — propriedades dos aplicadores de castigos — precisamos saber seus nomes e estampá-los pelas ruas, nas casas de famílias, nas escolas... Divulgar quanto ganharam e ganham, onde estão, do que vivem, com quem se relacionam...

A tortura, assim como a punição, não é um instituto jurídico, mas um dispositivo das tecnologias de poder.

Danem-se os torturadores! E que sejam sempre bem-vindos os subversivos, em qualquer regime. Deles sempre dependerão novas experimentações de liberdade! Mas não confundam subversão pela liberdade com terrorismo fundamentalista!

Abaixo qualquer terror de Estado e os torturadores! Não nos esqueçamos que a democracia moderna nasceu com o terror!

A democracia é também o regime propício a ampliar liberdades e dar um fim ao regime da propriedade.
xxxxiSaúde!

www.nu-sol.org