
Maria Tereza Goudard Tavares
[...]
Com efeito, o crescimento vertiginoso da miséria humana, da degradação ambiental, da exclusão social e da violência em todos os campos do social, associado à descrença contemporânea na política – alimentada pelos mass media e pela indústria cultural – e somados ao declínio da esfera pública e mercantilização crescente da vida cotidiana, vêm acelerando a irrupção de sentimentos e práticas niilistas, que exarcebam o individualismo e o descompromisso com a vida coletiva, objeto fundamental da ética e da política.
Nesse sentido, as palavras de Boaventura de Souza Santos são definidoras da profunda crise do momento presente:
"Vivemos num tempo paradoxal. Um tempo de transformações vertiginosas produzidas pela globalização, a sociedade de consumo e a sociedade de informação. Nunca foi tão grande a discrepância ente a possibilidade técnica de uma sociedade melhor, mais justa e mais solidária e a sua impossibilidade política" (Por uma pedagogia do conflito. Editora Sulina, 1996).
Para outros como François Dubet (As desigualdades multiplicadas. Editora Unijuí, 2003), a atual crise civilizatória é muito mais aguda e complexa do que em outros períodos da história humana. Pois, a partir da modernidade no mundo ocidental, as desigualdades que sempre existiram, passam a ser consideradas não mais “naturais”. Portando, passam a constituir um problema social, que deve ser equacionado no campo político, econômico, cultural, jurídico, educacional etc.
Nesse sentido, complexificou-se em inúmeras dimensões a questão da consciência da “não-natureza” das desigualdades intra e inter sociedades. Isto é, o (re)conhecimento da produção histórico-social das desigualdades não vem sendo acompanhado de um desaparecimento e/ou supressão das mesmas. Pelo contrário, as desigualdades vêm vertiginosamente se ampliando, tornando a vida de uma imensa maioria no planeta ameaçada ao ponto da perda de sua humanidade. A sociedade humana e o próprio ecossistema vêm sofrendo ameaças de extinção em diferentes lugares do planeta.
Trazendo essas questões para a sociedade brasileira contemporânea, convivemos com índices sociais trágicos. De acordo com o IBGE (2004), tratando-se das somas dos rendimentos, os 10% mais ricos ganham 47 vezes mais do que os 10% mais pobres. Em 2003, havia mais de 40 milhões de pobres abaixo da linha de sobrevivência, ou seja, um em cada quatro brasileiros.
Assim, a existência de milhares de desempregados, analfabetos, trabalhadores rurais sem terra, trabalhadores urbanos sem-teto, pobreza e miséria no campo e na cidade, a perda da infância de meninos e meninas nas ruas, o crime organizado e a nossa perversa concentração de renda são problemas que nos empurram cada vez mais para uma “apartheid” social e nos questionam se, em alguns momentos de nossa história, fomos cidadãos.
[...]
leia mais, saiba mais:
http://www.asduerj.org.br/publica/publicacoes.asp#