"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2010/06/11

e-mail__42


4. – O PROCESSO

Essa obra de F. Kafka é a previsão das maiores farsas judiciais dos tempos modernos, como os Processos de Moscou e Budapeste. É o supremo protesto contra a volta aos aspectos mais negativos da Renascença, materializados no culto à “razão de Estado”, sob os regimes totalitários.

Essa antevisão aparece no destino trágico e absurdo de José K., escravo e joguete de forças estranhas e invisíveis, tão impessoais como a burocracia que o condena.

Nessa obra aparece com maior clareza o traço original que liga a vida à obra de F. Kafka.

O personagem principal de O Processo coloca-se diante de um problema de caráter finalista:

“da direção e sentido de sua existência, de seu destino inexorável que culmina com a morte”.

Pelo fato de viver “para” esse destino é que o homem kafkiano se converte num condenado permanente sem outro consolo que suas meditações sobre uma culpa inexplicável, projetada em sua vida por uma autoridade impessoal e invisível como ela própria. Essa luta contra o absurdo finalismo de nossa existência adquire aspectos patéticos no homem kafkiano.

Ela é expressa por Kafka quando no seu Diário escreve:

“Eu luto mais que os outros. A maior parte luta com sonhos como quando se agita a mão para desviar minhas forças com reflexão e minúcia”.

O personagem verdadeiro de O Processo é a culpa. Uma culpa surda e invisível ligada organicamente ao ser, à existência.

José K., não enfrenta a luta, limita-se a padecê-la como um doente experimental que sofresse sozinho os efeitos da culpa. Esse herói é um tipo comum de funcionário bancário que enfrenta a Autoridade, “sofrendo” uma culpa cuja origem e razão ele próprio desconhece.

Com essa passividade de José K., diante da culpa e da Autoridade invisível, Franz Kafka esforça-se em mostrar que o que existe “fora” de nós, consiste simplesmente no aniquilamento e no “absurdo”. O inumano sempre bordeja o humano. E todas as consolações edificantes expressas em sistemas filosóficos nada mais são do que “racionalizações” desse absurdo, que só é apreendido pelo processo novelesco. Daí, a opção de Kafka pelo gênero conto ou romance.

O “absurdo” em F. Kafka rejeita todas as formas de “alienação”, seja a família, profissão, dinheiro, sistemas filosóficos, religião e o patriotismo. Elas nada podem contra o “escândalo” que consiste no simples existir.

O herói kafkiano rejeita a santidade como o desespero:

sua atitude é de imobilidade ante o absurdo.

José K., faz a prova da liberdade, permanecendo imóvel ante a Autoridade e atraindo sobre si “livremente” todas as conseqüências de sua atitude.

No decorrer do processo, José K., comporta-se-á como culpado do principio ao fim; em vez de inquirir “porque” o acusam interessa-lhe saber mais “quem” o acusa, tentando manter-se lúcido, a única arma que lhe resta. Sua tristeza é ter que se ir, sem conhecer nem saber que juiz o condena.

A impessoalidade da burocracia judicial transparece claramente no encontro entre José K. e o pintor:

- Os grandes advogados quem são? Como podem ser vistos? – pergunta José K.

- Você nunca ouviu falar deles? – responde o pintor. Não há nenhum acusado que não sonhou com eles durante algum tempo. Não se deixe dominar por essa debilidade. Quem são? Não sei. Quanto a conhecê-los, impossível.

Vemos o tema da autoridade unido estreitamente à culpa. José k., não pode viver sem se justificar. Então, tende a procurar a Autoridade. E se tal Autoridade não existisse, pensa ele, para que então essas idas e vindas, todo esse sofrimento, todo esse absurdo? Ela existe mas não é acessível a José K. Estamos diante da “incomunicabilidade”. A Autoridade, o Conselho Judicial de um lado, o homem do outro.

É a presença hofmaniana dessa máquina judicial, de uma justiça invisível que deixa no ar o gesto cego e impensado de uma acusação e uma sentença que parecem agitar-se no vácuo, funcionando mecanicamente que acaba reduzindo o individuo a condição promíscua de sub-homem.

Na prisão de José K. revela-se novamente a incomunicabilidade. Os funcionários que o prenderam nada podem dizer. Estão aí para prendê-lo, para cumprir ordens. “Tudo existe, mas nada se comunica”. A desconformidade do movimento parcial é a lei. Cada fenômeno move-se em seu próprio circulo hermeticamente fechado, sem ligação com o general.

O espanto de José K. ante sua detenção não tem limites. Nascido sob o agasalho de uma Constituição que garantia os direitos individuais, não concebe essa invasão em sua vida e ainda desconcertado pergunta:

- De que falam? A que serviço pertencem? Ninguém lhe responde.

Essa experiência do pacato cidadão diante da Autoridade é uma visão antecipadora do processo de sujeição do homem ao totalitarismo vivido na experiência do fascismo, nazismo e estalinismo.

José K. sente a força do destino em sua vida: este está traçado. Se o deixassem em liberdade condicional o pacato José K. seguiria sua existência normal: ir ao Banco, visitar semanalmente Elsa, passear com o chefe. Tenta iludir-se pensando que sua detenção nada pode ter de terrível.

José K. achega-se ao guarda principal e os outros se achegam por sua vez, formando um grupo cerrado. Por um processo de abstração ele se imagina tomando parte no grupo que o persegue, o “acusado livre” comenta o seu próprio “caso” com outrem, como se outro fosse. No entanto ele, nem sempre pode levar-se pelos vôos da imaginação e manter-se calmo.

Há momentos em que o desespero se apodera dele. Então, é quando sente a necessidade de conversar despreocupadamente, justificar-se perante os outros. José K. procura contacto com a vida, com os bens terrestres, coisa que Kafka aspirará encontrar em sua vida, mais inutilmente.

Angustiado José K. procura comunicar-se; sente uma incoercível necessidade de falar sobre o “caso” com a Senhora Grubach, travar com ela relações mais amigáveis, quotidianas.

O que importa n’O Processo é o culpado mais do que a justificação ou não da causa, que é pouco menos que secundaria, porque a justiça é inacessível, permanecendo incomunicável com o homem. Essa máquina permanece só, sem gestos, nem aparatos, como uma presença insólita no drama do humano.

Nesse singular processo pouco interessa o dia do julgamento:

ele se efetua num “domingo”.

O lugar onde funciona o tribunal pouco importa, num “local abandonado”. Pouco importa o “nome” do acusador; José K. é confundido com um pintor de paredes. Uma promiscuidade horrível reina em seu redor e tudo se processa numa marcha “mecânica” e “indiferente”. Pressente-se que o desfecho inevitável do drama, que se passa num ambiente opressor, junto às lavadeiras inexplicáveis, é a “morte”.

Isso todos sabem porque todos estão envolvidos. A intervenção inexplicável do tio do acusado no processo representa “simbolicamente” um chamado à vida familiar, de cujo circulo Franz Kafka permaneceu inteiramente afastado.

O advogado sob cuja tutela o herói permanecerá durante o transcorrer do processo, representa a transição com a corrupção, a cujos sinistros mecanismos é mister submeter-se e a cuja autoridade é impossível atingir. Essa é a significação exata da presença de Titorelli, pintor medíocre, amigo, tal como o advogado, de juizes subalterno se servis que muito pouco farão por José K. lhe diz:

- Pertences à Justiça? Para que me queres?

- A Justiça nada quer de ti. Toma-te quando vens e deixa-te quando vais.

Certa noite a Justiça vestida de negro aparece diante de José K. Levam-no a um local afastado e com três facadas no coração liquidam-no. Onde estava o juiz? Onde estava a Alta Corte que o condenou? Continuam sendo entidades abstratas e incomunicáveis com o humano, com José K. transformado em símbolo.


extrato do ensaio de Maurício Tragtenberg sobre FRANZ KAFKA – O ROMANCISTA DO “ABSURDO”.

2010/06/09

e-mail__40

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE MAIO DE 2010


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12/06, sábado às 20h

Centro de Cultura Social

Rua Gal. Jardim nº 253 – sala 22 – Vila Buarque (metrô República)


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"Escrever... é um sono mais profundo que a morte... assim como ninguém tiraria um cadáver do seu túmulo, eu não posso ser tirado da minha secretária à noite."

Franz Kafka

fonte:

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BREVE ARTIGO SOBRE “O PROCESSO”,

livro de FRANZ KAFKA

por Juliana Silva Valis

Em uma manhã aparentemente corriqueira, Josef K., um jovem procurador de banco, foi surpreendido em sua residência por dois guardas que vieram comunicar-lhe a respeito de um processo que estava sendo movido contra ele. Pensando se tratar de uma brincadeira, Josef K. inicialmente não levou os guardas a sério.

Como desconhecia o motivo pelo qual estava sendo processado, K. supôs que tal situação não passasse de uma mera artimanha tramada por seus colegas de banco, a fim de surpreendê-lo.

Posteriormente, K. teve encontro com um inspetor que lhe certificou acerca de sua detenção; sem, contudo, esclarecer as razões que nortearam o processo.

No dia em que completara 31 anos, Josef K. foi morto à porta de sua casa, desconhecendo completamente os motivos pelos quais havia sido processado durante un ano.

Esse romance de Franz Kafka constitui uma grande crítica metafórica a todos os mecanismos jurídicos que, de fato, demonstram aspectos obscuros e incompreensíveis à maioria da população.

É claro que “O processo” de Kafka, certamente tão instigador como a obra “Metamorfose”, suscita complexos debates acerca das metáforas contidas na história, denotando todas uma certa perplexidade humana.

Em rápida abordagem deve-se vislumbrar que Josef K. é um personagem tão verossímil quanto o problema por ele enfrentando diante de labirintos jurídicos e sociais, constantemente vagos ou obscuros.

Ainda hoje, quantos “Josefs K.”. existirão, andando feito fantoches sob as incertezas da justiça humana?

Certamente, essa obra de kafka ainda renderá muitas divagações sobre nossa vulnerabilidade diante dos atos jurídicos do Estado, que freqüêntemente afronta seus cidadãos.

Publicado no Recanto das Letras em 20/02/2007