"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2012/01/23

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Autonomia operária

Tragtenberg, Maurício

Preço:
R$69,00
 

Sinopse     


Neste novo volume da coleção de Maurício Tragtenberg, encontramos mais uma amostra da militância crítica deste pensador brasileiro. Sempre com um olhar aguçado para as mazelas do país, em Autonomia operária ele se volta exclusivamente para a causa dos trabalhadores. Estão reunidos aqui artigos seus publicados em jornais a partir da década de 1970 – entre os quais se incluem Notícias Populares, Folha de S. Paulo e O São Paulo –, todos eles em defesa da classe trabalhadora.

Nestes textos é possível perceber sua vigorosa oposição à burocracia sindical e do Estado, sua indignação em relação às condições de vida e de trabalho dos operários fabris e dos bóias-frias no campo do estado de São Paulo. Essa gama de assuntos é exposta pela escrita contundente e ao mesmo tempo agradável de Tragtenberg, alheia à frequente arrogância intelectual do meio acadêmico. Este é mais um belo exemplar do que há de melhor no pensamento social brasileiro.


2010/10/07

indicação de leitura




Com o intuito de integrar uma série de leituras e reflexões pessoais sobre as tensões internacionais, seus pontos de convergência e de atrito, Maurício Tragtenberg dedicou-se ao estudo dos mecanismos socioeconômicos que levam ao planejamento, tanto no modelo econômico ocidental como no soviético.

O resultado é agora publicado em O capitalismo no século XX, lançamento da Editora Unesp que integra a coleção de obras do autor, falecido em 1998.

Este trabalho é uma tentativa de caracterizar os momentos importantes da evolução do capitalismo e do espírito burguês e os embates por que passou com os grandes movimentos revolucionários do século XX.

O autor aborda a questão da acumulação do capital como o principal objetivo do homem moderno, quando o "eu" passa a se submeter a fins econômicos e extra-humanos.

Se, antes, as atividades econômicas eram um meio para salvação espiritual do homem e o lucro era visto como irracional, com o capitalismo as relações entre pessoas acabam perdendo seu caráter mais humano e tornam-se puramente instrumentais e pragmáticas.

Diante dessa transformação de valores, o capitalismo é estudado nessa obra como um universo repleto de complexidades e inquietações.

Um estudo caracterizado pela erudição meditada, heterodoxia tolerante e autonomia intelectual, características constantes em todos os trabalhos de Maurício Tragtenberg.

Sobre a Coleção Maurício Tragtenberg - A relevância da obra de Maurício Tragtenberg, em que a erudição acadêmica é temperada pela autonomia intelectual e opções doutrinárias heterodoxas, evidenciam a importância de se reunir seus trabalhos dispersos e variados.

Este é o objetivo desta Coleção, coordenada por Evaldo A. Vieira e lançada pela Editora Unesp. O restabelecimento dos textos é feito por meio de comparação com originais e cuidados formais que incluem notas, compilação de artigos e revisão.

A Coleção Maurício Tragtenberg inclui a parcela mais representativa do que foi produzido por este intelectual.

Título: O capitalismo no século XX
Autor: Maurício Tragtenberg 
Páginas: 186
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R$ 36,oo
ISBN: 978-85-7139-982-2
Coleção: Maurício Tragtenberg
Data de publicação: 2010

Os livros da Fundação Editora da Unesp podem ser  adquiridos  pelo  telefone  (11) 3107-2623   ou  pelos sites:
www.editoraunesp.com.br 
ou 
www.livrariaunesp.com.br
 

2010/10/06

indicação de leitura


SINOPSE:

Maurício Tragtenberg nos legou uma vasta obra que trata de temas históricos, sociológicos, políticos, educacionais, entre outros.

Seus textos expressam um compromisso militante e uma perspectiva política crítica à sociedade capitalista e às concepções autoritárias sobre o socialismo.

Escritos em linguagem simples, são textos de denúncia que estabelecem o diálogo com os operários e os excluídos do sistema de ensino formal, em especial a universidade.

Este livro é uma coletânea de artigos de jornais e de revistas escritos por Maurício Tragtenberg ao longo de sua vida.

Os artigos aqui reunidos abordam temas conjunturais e de fundo, e mostram a crítica ácida do pensador comprometido com um projeto libertário de sociedade


fonte:

2010/08/06

extraindo conceitos


Filosofia

Publicação resgata estudos de Tragtenberg sobre o pensamento capitalista


Com o intuito de integrar uma série de leituras e reflexões pessoais sobre as tensões internacionais, seus pontos de convergência e de atrito, Maurício Tragtenberg dedicou-se ao estudo dos mecanismos socioeconômicos que levam ao planejamento, tanto no modelo econômico ocidental como no soviético. O resultado é agora publicado em O capitalismo no século XX, lançamento da Editora Unesp que integra a coleção de obras do autor, falecido em 1998. Este trabalho é uma tentativa de caracterizar os momentos importantes da evolução do capitalismo e do espírito burguês e os embates por que passou com os grandes movimentos revolucionários do século XX.

O autor aborda a questão da acumulação do capital como o principal objetivo do homem moderno, quando o "eu" passa a se submeter a fins econômicos e extra-humanos. Se, antes, as atividades econômicas eram um meio para salvação espiritual do homem e o lucro era visto como irracional, com o capitalismo as relações entre pessoas acabam perdendo seu caráter mais humano e tornam-se puramente instrumentais e pragmáticas.

Diante dessa transformação de valores, o capitalismo é estudado nessa obra como um universo repleto de complexidades e inquietações. Um estudo caracterizado pela erudição meditada, heterodoxia tolerante e autonomia intelectual, características constantes em todos os trabalhos de Maurício Tragtenberg.

Sobre a Coleção Maurício Tragtenberg - A relevância da obra de Maurício Tragtenberg, em que a erudição acadêmica é temperada pela autonomia intelectual e opções doutrinárias heterodoxas, evidenciam a importância de se reunir seus trabalhos dispersos e variados. Este é o objetivo desta Coleção, coordenada por Evaldo A. Vieira e lançada pela Editora Unesp. O restabelecimento dos textos é feito por meio de comparação com originais e cuidados formais que incluem notas, compilação de artigos e revisão. A Coleção Maurício Tragtenberg inclui a parcela mais representativa do que foi produzido por este intelectual.

Título: O capitalismo no século XX
Autor: Maurício Tragtenberg
Número de Páginas: 186
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R$ 36
ISBN: 978-85-7139-982-2
Coleção: Maurício Tragtenberg


fonte:

http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESSO/edicoes/0/Artigo180137-1.asp

2010/07/25

extraindo conceitos__81


SINOPSE:
Ao abrir este livro, o leitor verá a tentativa bem 
conduzida de caracterizar momentos importantes 
na evolução do capitalismo e do espírito burguês e, 
depois, nos embates que estes sofreram dos grandes 
movimentos revolucionários do nosso tempo. 
 
Simultaneamente, verá o esforço de reconhecer, na 
diversidade dos tempos e dos caminhos da história, 
algumas constantes que permitem localizar o processo 
desfechado na ideia e na prática da planificação 
econômica.

Com honestidade e heterodoxia, longe de dogmas e 
preconceitos, o autor circula entre fatos históricos, 
sociais e econômicos com uma  formosa liberdade, 
manifestando a cada instante uma equação pessoal 
que não se quer omitir e que atua como presença 
fecundante.

fonte:
http://www.editoraunesp.com.br/titulo_view.asp?IDT=1157

2010/06/29

extraindo conceitos__68

Maurício Tragtenberg nos legou uma vasta obra que 
trata de temas históricos, sociológicos, políticos, 
educacionais, 
entre outros. 
Seus textos expressam um compromisso militante e 
uma perspectiva política crítica à sociedade capitalista 
e às 
concepções autoritárias sobre o socialismo. 
Escritos em linguagem simples, são textos de denúncia 
que estabelecem o diálogo com os operários e os 
excluído
s 
do sistema de ensino formal, em especial a 
universidade.
Este livro é uma coletânea de artigos de jornais e de 
revistas escritos por Maurício Tragtenberg ao longo 
de sua 
vida. 
Os artigos [...] reunidos abordam temas conjunturais 
e de fundo, e mostram a crítica ácida do pensador 
comprometido com um projeto libertário de sociedade.
anônimo:

Tragtenberg:

“O desrespeito à diferença, a intolerância agressiva mostram que ao autoritarismo e a ditadura não são somente fenômenos do Estado, estão inseridos na saciedade civil, nas instituições que a compõem. A desgraça maior é ver que cada um de nós traz um ditador dentro de si, um déspota intolerante à divergência, em suma um nível de autoritarismo que corrói as melhores intenções democráticas.” (Folha de São Paulo, 27.10.1980)

2010/06/11

e-mail__42


4. – O PROCESSO

Essa obra de F. Kafka é a previsão das maiores farsas judiciais dos tempos modernos, como os Processos de Moscou e Budapeste. É o supremo protesto contra a volta aos aspectos mais negativos da Renascença, materializados no culto à “razão de Estado”, sob os regimes totalitários.

Essa antevisão aparece no destino trágico e absurdo de José K., escravo e joguete de forças estranhas e invisíveis, tão impessoais como a burocracia que o condena.

Nessa obra aparece com maior clareza o traço original que liga a vida à obra de F. Kafka.

O personagem principal de O Processo coloca-se diante de um problema de caráter finalista:

“da direção e sentido de sua existência, de seu destino inexorável que culmina com a morte”.

Pelo fato de viver “para” esse destino é que o homem kafkiano se converte num condenado permanente sem outro consolo que suas meditações sobre uma culpa inexplicável, projetada em sua vida por uma autoridade impessoal e invisível como ela própria. Essa luta contra o absurdo finalismo de nossa existência adquire aspectos patéticos no homem kafkiano.

Ela é expressa por Kafka quando no seu Diário escreve:

“Eu luto mais que os outros. A maior parte luta com sonhos como quando se agita a mão para desviar minhas forças com reflexão e minúcia”.

O personagem verdadeiro de O Processo é a culpa. Uma culpa surda e invisível ligada organicamente ao ser, à existência.

José K., não enfrenta a luta, limita-se a padecê-la como um doente experimental que sofresse sozinho os efeitos da culpa. Esse herói é um tipo comum de funcionário bancário que enfrenta a Autoridade, “sofrendo” uma culpa cuja origem e razão ele próprio desconhece.

Com essa passividade de José K., diante da culpa e da Autoridade invisível, Franz Kafka esforça-se em mostrar que o que existe “fora” de nós, consiste simplesmente no aniquilamento e no “absurdo”. O inumano sempre bordeja o humano. E todas as consolações edificantes expressas em sistemas filosóficos nada mais são do que “racionalizações” desse absurdo, que só é apreendido pelo processo novelesco. Daí, a opção de Kafka pelo gênero conto ou romance.

O “absurdo” em F. Kafka rejeita todas as formas de “alienação”, seja a família, profissão, dinheiro, sistemas filosóficos, religião e o patriotismo. Elas nada podem contra o “escândalo” que consiste no simples existir.

O herói kafkiano rejeita a santidade como o desespero:

sua atitude é de imobilidade ante o absurdo.

José K., faz a prova da liberdade, permanecendo imóvel ante a Autoridade e atraindo sobre si “livremente” todas as conseqüências de sua atitude.

No decorrer do processo, José K., comporta-se-á como culpado do principio ao fim; em vez de inquirir “porque” o acusam interessa-lhe saber mais “quem” o acusa, tentando manter-se lúcido, a única arma que lhe resta. Sua tristeza é ter que se ir, sem conhecer nem saber que juiz o condena.

A impessoalidade da burocracia judicial transparece claramente no encontro entre José K. e o pintor:

- Os grandes advogados quem são? Como podem ser vistos? – pergunta José K.

- Você nunca ouviu falar deles? – responde o pintor. Não há nenhum acusado que não sonhou com eles durante algum tempo. Não se deixe dominar por essa debilidade. Quem são? Não sei. Quanto a conhecê-los, impossível.

Vemos o tema da autoridade unido estreitamente à culpa. José k., não pode viver sem se justificar. Então, tende a procurar a Autoridade. E se tal Autoridade não existisse, pensa ele, para que então essas idas e vindas, todo esse sofrimento, todo esse absurdo? Ela existe mas não é acessível a José K. Estamos diante da “incomunicabilidade”. A Autoridade, o Conselho Judicial de um lado, o homem do outro.

É a presença hofmaniana dessa máquina judicial, de uma justiça invisível que deixa no ar o gesto cego e impensado de uma acusação e uma sentença que parecem agitar-se no vácuo, funcionando mecanicamente que acaba reduzindo o individuo a condição promíscua de sub-homem.

Na prisão de José K. revela-se novamente a incomunicabilidade. Os funcionários que o prenderam nada podem dizer. Estão aí para prendê-lo, para cumprir ordens. “Tudo existe, mas nada se comunica”. A desconformidade do movimento parcial é a lei. Cada fenômeno move-se em seu próprio circulo hermeticamente fechado, sem ligação com o general.

O espanto de José K. ante sua detenção não tem limites. Nascido sob o agasalho de uma Constituição que garantia os direitos individuais, não concebe essa invasão em sua vida e ainda desconcertado pergunta:

- De que falam? A que serviço pertencem? Ninguém lhe responde.

Essa experiência do pacato cidadão diante da Autoridade é uma visão antecipadora do processo de sujeição do homem ao totalitarismo vivido na experiência do fascismo, nazismo e estalinismo.

José K. sente a força do destino em sua vida: este está traçado. Se o deixassem em liberdade condicional o pacato José K. seguiria sua existência normal: ir ao Banco, visitar semanalmente Elsa, passear com o chefe. Tenta iludir-se pensando que sua detenção nada pode ter de terrível.

José K. achega-se ao guarda principal e os outros se achegam por sua vez, formando um grupo cerrado. Por um processo de abstração ele se imagina tomando parte no grupo que o persegue, o “acusado livre” comenta o seu próprio “caso” com outrem, como se outro fosse. No entanto ele, nem sempre pode levar-se pelos vôos da imaginação e manter-se calmo.

Há momentos em que o desespero se apodera dele. Então, é quando sente a necessidade de conversar despreocupadamente, justificar-se perante os outros. José K. procura contacto com a vida, com os bens terrestres, coisa que Kafka aspirará encontrar em sua vida, mais inutilmente.

Angustiado José K. procura comunicar-se; sente uma incoercível necessidade de falar sobre o “caso” com a Senhora Grubach, travar com ela relações mais amigáveis, quotidianas.

O que importa n’O Processo é o culpado mais do que a justificação ou não da causa, que é pouco menos que secundaria, porque a justiça é inacessível, permanecendo incomunicável com o homem. Essa máquina permanece só, sem gestos, nem aparatos, como uma presença insólita no drama do humano.

Nesse singular processo pouco interessa o dia do julgamento:

ele se efetua num “domingo”.

O lugar onde funciona o tribunal pouco importa, num “local abandonado”. Pouco importa o “nome” do acusador; José K. é confundido com um pintor de paredes. Uma promiscuidade horrível reina em seu redor e tudo se processa numa marcha “mecânica” e “indiferente”. Pressente-se que o desfecho inevitável do drama, que se passa num ambiente opressor, junto às lavadeiras inexplicáveis, é a “morte”.

Isso todos sabem porque todos estão envolvidos. A intervenção inexplicável do tio do acusado no processo representa “simbolicamente” um chamado à vida familiar, de cujo circulo Franz Kafka permaneceu inteiramente afastado.

O advogado sob cuja tutela o herói permanecerá durante o transcorrer do processo, representa a transição com a corrupção, a cujos sinistros mecanismos é mister submeter-se e a cuja autoridade é impossível atingir. Essa é a significação exata da presença de Titorelli, pintor medíocre, amigo, tal como o advogado, de juizes subalterno se servis que muito pouco farão por José K. lhe diz:

- Pertences à Justiça? Para que me queres?

- A Justiça nada quer de ti. Toma-te quando vens e deixa-te quando vais.

Certa noite a Justiça vestida de negro aparece diante de José K. Levam-no a um local afastado e com três facadas no coração liquidam-no. Onde estava o juiz? Onde estava a Alta Corte que o condenou? Continuam sendo entidades abstratas e incomunicáveis com o humano, com José K. transformado em símbolo.


extrato do ensaio de Maurício Tragtenberg sobre FRANZ KAFKA – O ROMANCISTA DO “ABSURDO”.

2010/05/07

extraindo conceitos__50


O voto universal é a aparência do governo popular. Os eleitos acabam por emancipar-se da dependência do povo, e a política torna-se ciência oculta que a população não entende.

Há uma grande ilusão popular que o governo representativo eleito pelo sufrágio “universal” – analfabetos que constituem 50% da população não votam – seja o governo do povo ou o povo no governo. O regime representativo tem uma história que é importante conhecer para avaliar o quadro eleitoral atual no País.

No século XII as cidades libertaram-se do jugo do Senhor e “juraram” organizar-se autonomamente para defesa mútua, organização da produção e troca, durante quatro séculos são o refúgio do trabalho livre na Europa. Os comerciantes criam “conjurações” para defender-se nas cidades, independentes do Senhor, do Rei e da Igreja.

Elas unem-se por um fórum, onde o povo é reunido pelo badalar dos sinos para discutir e resolver diretamente na praça seus problemas. O Senhor que inicialmente é chefe de um “bando” recebendo tributo e vendendo proteção, tornou-se Rei. O “fórum” expulsou-o e ele refugiou-se numa cidade nova. Com as guerras, vieram os exércitos permanentes, favoreceu-se a concentração do poder no Estado e as “comunas” urbanas decaíram e perderam sua autonomia.

Nos séculos XIV e XV, formou o Rei o “Conselho de Nobreza” e o “Conselho do Clero” nascendo assim os parlamentos; com poder limitado: votação de créditos para guerra, dependiam de sua aprovação, diferente do poder ilimitado dos parlamentares atuais. Após o esmagamento das revoltas camponesas, com auxílio dos comerciantes concentra-se o poder do Rei, os subsídios transformam-se em impostos, a burguesia alia-se ao Rei e os camponeses são reduzidos à servidão.

A burguesia para defender-se da desobediência do povo e da recusa a pagar impostos, na Revolução Francesa, cria a Assembléia Parlamentar, fazendo-se defensora do governo representativo, onde o povo elege seus “defensores”: é o governo por procuração. O maior dos preconceitos políticos radica na fé num governo representativo, por procuração.

Sob a Monarquia ou República ele mostra apenas que o povo não se governa a si próprio. Ele é governado por representantes vinculados ao poder econômico dominante na sociedade, às “máquinas burocráticas” dos partidos políticos. No processo eleitoral o povo abdica de sua própria iniciativa colocando-a nas mãos de uma assembléia de “eleitos”.

As Constituições tradicionalmente desrespeitadas, são refeitas para uso de todos. Mesmo aqueles que pretendem mudar o regime de propriedade não ousam tocar no regime representativo, procuram preservar custe o que custar o governo sob procuração. O Parlamento, torna-se instrumento de intrigas palacianas, enriquecendo pessoal e carreirismo político.

A liberdade real implica em não ser representado abandonando tudo aos eleitos, mas, procurar lutar socialmente por si mesmo através das coletividades organizadas a partir dos locais de trabalho.

Ação direta do povo

Muitos acham que o regime parlamentar nos deu as liberdades políticas, esquecendo que a liberdade de imprensa, reunião e associação foi arrancada no país matriz do Parlamento – Inglaterra – através de ação direta do povo.

Os operários no século XIX conquistaram seu direto à greve através da ocupação das manufaturas. Derrubando as grades do Hyde Park londrino onde era proibida sua entrada, conquistaram seu direito à palavra na rua. Atribuir aos parlamentos o que é devido à ação popular é pensar que basta existir uma Constituição para que haja liberdade e direitos respeitados.

O regime representativo introduzido na Europa pela burguesia trouxe algumas vantagens ao povo, porém, o monárquico sob os senhores feudais também o fizera, nem por isso endeusaremos a Monarquia.

O regime representativo surgiu com a burguesia e com ela desaparecerá. Qualquer governo, seja constitucional ou não, tem tendência a alargar seu Poder sobre o trabalhador e pelo Parlamento tende a legislar sobre tudo e intervir em tudo que é de sua competência ou não.

O voto universal é a aparência do governo popular; cada deputado é eleito por certo número de eleitores; o corpo eleitoral na sua totalidade não é representativo. O parlamentar para transformar um projeto em lei, tem que fazer concessões, transações, conchavos, onde as considerações clientelísticas e partidárias predominam.

Os deputados, senadores ou governadores, longe do povo, acabam por aumentar seu poder, emancipando-se da dependência do povo, ou de “todo poder saído do povo” mas que a ele não volta. A política torna-se ciência oculta que o povo não entende.

Os candidatos defendem ferreamente seus programas, fa-lo-ão após eleitos?

Nesse processo político a propaganda dos princípios é substituída pela propaganda das pessoas. O único interesse dos partidos é a vitória das candidaturas.

A ilusão eleitoral em pensar que depositando ritualmente um voto numa urna, o povo detém algum poder de decisão quando o candidato é escolhido via “compra da legenda” em dinheiro, indicação via Comissão estadual ou federal, onde tem grande peso o “capital de relações sociais”.

A ilusão eleitoral, leva o povo à inércia, ao endormecimento, esperando que alguém lute por ele. No fundo, é uma escola de conformismo social, onde confunde-se mobilização popular real partindo dos próprios interessados em defenderem suas reivindicações, com, arregimentação de povo em comício onde alguém indicado fala por ele.

Administradores da crise

No quadro nacional observa-se a existência do PDS e PTB como situacionistas e PMDB, PT e PDT como oposicionistas.

O Partido Trabalhista Brasileiro criado por Vargas para conter o povo quando saía dos limites permissíveis estabelecidos pelo Poder, contou com forte apoio operário e forneceu a grande maioria dos “pelegos” sindicais e burocratas da Previdência Social, que infelicitam o País.

O PMDB tende a transformar-se quanto mais passa o tempo em PMDS. Isso é, em São Paulo, tenderá a definir os poderes de mando, nas mãos do “clã parental” do senador Montoro com apoio dos “quadros” do antigo Partido Democrata Cristão. Os “esquerdistas” do PMDB tenderão a se tornar marinheiros: irão ver navios.

Constituído como um conglomerado de tendências, essa grande “frente de aliança de classes” que é o PMDB só não implodirá após as eleições na medida em que seus governadores eleitos, tenderão nas mãos o poder de nomeação para milhares de cargos públicos.

O peso da classe média e da camada intelectual nesse processo político não é desprezível, assim, via partidária tenderão a ascender como "assessores do Rei” se constituindo em profissionais da denominação. Terão um discurso muito radical e uma prática muito medrosa.

Elegendo governadores em vários estados, o PMDB, nessa fase de crise do capitalismo mundial, elegerá os administradores da crise, que daqui a um ano ou pouco mais se verão na opção: reprimir o povo e continuar a testa do Estado ou não faze-lo e ser deposto pelo poder federal por não ter “salvaguardado” a ordem.

O Partido dos Trabalhadores que inicialmente constituiu uma esperança de valorização da auto-organização dos mesmos, ao eleger o caminho eleitoral e tende a formar, em cada trabalhador vereador, deputado ou senador, um ex-trabalhador.

Se não definir com clareza seu objetivo em termos de mudança estrutural, poderá ser cooptado pelo regime transformando-se em seu “braço esquerdo”.

A eleição de Mitterrand na França e de Gonzales na Espanha mostram a tendência do capitalismo em crise, optar por solução “social-democrática” (reformar para não mudar). Isso, na França, tem levado Mitterrand a propor o congelamento de salários e realizar uma política de “austeridade”, na mesma linguagem que o ministro Delfim Neto usa aqui há anos, e economistas do PMDB propõem como “solução alternativa” para a crise: racionalização. Esse conceito, pode significar para o trabalhador, a manutenção das condições terríveis de trabalho, superexploração da sua força de trabalho.

Vença quem vencer as eleições, nada muda no interior das fábricas, nos campos e nas oficinas. Nos escritórios, nos bancos, nos hospitais.

As relações hierárquicas de dominação e exploração continuarão as mesmas, só que administradas por um governo que, em “nome do povo”, poderá pedir-lhe “sacrifícios” e, se for o caso, usar o aparelho repressivo do Estado como usaram-no todos que ocuparam o poder de Cabral até hoje.

Não há soluções mágicas ou milagrosas. Um bom ponto de partida é definir que só mediante a ação livre e direta de todos os assalariados, auto-organizados a partir de seus locais de trabalho, podem esperar ser ouvidos e ter um lugar ao sol. No processo de suas lutas aprenderão a conhecer-se melhor e conhecer aqueles que em seu nome querem falar.

Não há vida por procuração, cada um tem que viver a sua, assim como, não há luta por procuração, cada grupo humano tem que auto-organizar-se para travar a sua luta. A união dessas lutas será mais significativa que qualquer eleição. O Solidariedade é o maior exemplo. O resto é literatura, e má.

Concluindo, a ilusão eleitoral faz parte da “ilusão do político” onde intelectuais e políticos tendem a crer como suas (independentes da base econômica) as metas que se propõem a si e aos outros.


Maurício Tragtenberg é professor na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e na Universidade Estadual de Campinas, autor de “Burocracia e Ideologia” e “Administração, Poder e Ideologia”.

texto na integra:

nota:
1-Esse texto foi publicado originalmente em 14 de Novembro de 1982 no suplemento “Folhetim” do Jornal Folha de São Paulo.

2010/02/02

extraindo conceitos__21


Numa conferência realizada em Paris em 1887, Kropotkin aborda um dos temas centrais da sociedade atual que, depois das questões econômica e política, é a mais importante: a questão judicial

A pergunta a que ele pretende responder é: o que se deve fazer com aqueles que cometem atos anti-sociais? Condenação à morte, trabalhos forçados, prisão perpétua? A máquina judicial povoa as prisões.

No entanto – e aqui os dados de Kropotkin são do século passado [XIX], cuja semelhança com os atuais [XX] é chocante – a única certeza que a administração carcerária tem é a da reincidência no crime, pois o aumento ou a diminuição da pena não contribuem para que os índices de criminalidade decresçam.

É a partir dessa constatação que Kropotkin argumenta que nada pode ser reformado no sistema penitenciario: a prisão, ao tirar a liberdade do homem e matar a sociabilidade que o capacita a viver em sociedade, só faz fabricar o criminoso reincidente.

A pretexto de “reeducar” o criminoso, o regime carcerário de fato degrada, de várias formas, o prisioneiro. Também não se trata de vigiar os guardas ou escolher para diretores dos presídios pessoas realmentes “sérias”, pois o universo da prisão também é uma espécie de sentença para esses indivíduos.

Como as prisões demonstraram serem incapazes de resolver o problema dos crimes, para Kropotkin cabe sim buscar suas causas, e elas são de responsabilidade social: a miséria, odesemprego, a desorganização familiar. O capitalismo, que cultiva o desprezo ao trabalho manual e cultua o deus-capital, cria personalidades anti-sociais, pessoas que querem viver às custas de outras que as mantenham. Os criminosos “bem-sucedidos” são glorificados. Os que “fracassam” na “carreira” é que serão trancafiados nas prisões.

Não é à toa que a maioria dos crimes, nesta sociedade fundada na propriedade dos bens por poucos e na expropriação de muitos, são contra a propriedade.

A minoria deles, que atigem a pessoa humana enquanto indivíduo, com o desenvolvimento de relações sociais fundadas na cooperação, apoio mútuo e respeito ao próximo tenderão fatalmente a decair e até mesmo a desaparecer.

As instituições presidiárias representam apenas uma solução de compromisso entre a nossão bíblica de vingança, do Velho Testamento, a noção medieval de existência de uma vontade diabólica geradora do crime e a noção moderna de evitar o crime pelo castigo. Esse termo aparece transfigurado como “reeducação” ou “reintegração”, alteração filológica e não filosófica.

A pena de morte, por sua vez, é apontada por alguns como solução para a reincidência criminosa de pessoas que cometeram homicídio ou atentaram contra a propriedade privada. No entanto, quando a pena de morte, na sociedade capitalista atingiu um banqueiro, um industrial ou um financista?

Assim como o hospital psiquiátrico é um depósito de pobres, o presídio também o é. Sua função, muito longe de ser a de “reintegrar”, é a de estigmatizar. Para que tanto trabalho e custos para apenas garantir a boa consciência das várias frações da classe dominante? Do mesmo modo que a prostituição é a condição do casamento monogâmico, a existência do estigma criminal é a condição da boa consciência da burguesia e da pequena burguesia das grandes cidades.

Para Kropotkin, nem as prisões nem a pena de morte – um assassinato legal – diminuíram o número de crimes. Para ele, só o apoio humano fraterno àqueles que, por motivos os mais variados, venham a passar por um processo de desestruturação situacional, só a liberdade para que o indivíduo possa demonstrar suas potencialidades, criatividade e humanidade são remédios contra o crime.

Num mundo como o capitalista, governado pela mercadoria, onde não só o trabalho é uma delas, mas a própria personalidade humana se converte numa mercadoria, esses remédios são esmagados.

Caso haja no contingente de presidiários aqueles que possuem problemas psíquicos, nada mais certo que receberem atenção adequada dos especialistas e atenção solidária da comunidade.

Uma sociedade livre não necessita de depósitos de seres humanos segregados. A segregação é o grande crime contra a pessoa, a fonte de todas as perversões, delinqüências e deformações psíquicas.

Não é por acaso que os hospitais psiquiátricos tradicionais, que os colégios internos, conventos e prisões fechadas são incompatíveis com uma sociedade igualitária e libertária.

Infelizmente, constituem o cartão de visita de sociedades fundadas na exploração e na opressão do homem pelo homem.

In:

Texto copilado da "apresentação" ao livro KROPOTKIN (textos escolhidos); Biblioteca Anarquista; Seleção de Maurício Tragtenberg; L&PM Editores; 1987.