"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2010/01/24

extraindo conceitos__20

As utopias retomam sua importância histórica no momento em que as coletividades se encontram diante de contradições patentes que as ideologias oficiais são incapazes de resolver, ao passo que, ao mesmo tempo, soluções diferentes são imagináveis.

Essa situação se renova hoje.

Para além das ideologias partidárias, certos espíritos podem medir as contradições criadas pela desigualdade da distribuição mundial dos bens, pela incapacidade dos governantes em dominar a explosão demográfica, pela extensão dos embargos estatais, pela vontade por parte das grandes potências de continuar a preparação de futuros massacres.

Em múltiplos lugares, nas classes dominadas, nas classes jovens, assim como entre os especialistas das ciências sociais, desenvolve-se uma nova consciência que leva em conta essas novas situações e busca solucioná-las.

Gera-se assim, para além das ideologias oficiais e dos poderes vigentes, uma nova consciência internacional sem instituição cerceante e que só pode expressar-se por invenções utópicas.

Essa necessidade de utopias não se origina apenas nas frutações e na inquietação em face do futuro, mas também no pressentimento de que os remédios, as soluções são possíveis, ainda que não se possa impor diretamente a sua realização.

O desejo de utopia é tanto mais vivo quanto a imensidade das possibilidades tecnológicas e o indefinido dos poderes de persuasão levam a pensar que soluções “racionais” podem ser inventadas para combater o mal mundial e forçar a admissão das soluções.

Percebe-se ao mesmo tempo que tais projetos libertadores chocam-se com um excesso de fronteiras, um excesso de ideologias fixas e de interesses de classe e de nações para que possam hoje receber um início de aplicação.

Nessa situação, a utopia libera a imaginação das planas objeções referentes às realizações e pode confrontar os verdadeiros problemas relativos aos fins e aos valores.

O utopista moderno encontra-se diante de uma tarefa bem mais vasta do que a que propunha Platão ou Thomas Moore, na própria medida em que o campo do deliberável se ampliou infinitamente.

Já não se trata a penas de imaginar uma nova distribuição das riquezas numa pequena cidade, e sim de reestudar todas as modalidades de vida, todas as relações sociais, não apenas numa cidade e sim ao nível do mundo em sua totalidade.

O utopista moderno precisa traçar o projeto de uma nova relação do homem com a natureza, relação de simbiose e não mais dominação; precisa estudar os equilíbrios entre a massa dos humanos e as possibilidades naturais, precisa; após tantas experiências históricas do totalitarismo, reinventar modelos institucionais não-opressivos, reinventar o político; precisa ainda, como fizeram grandes utopistas, reestudar as relações sociais ao nível mundial e propor uma imagem do homem que ultrapasse os limites das nações.

A amplitude de tal tarefa não seria atualmente executada por nenhuma das ideologias atuais. A nova revolta passa hoje pelo discurso utópico.

Caberá às futuras ideologias retomar o sentido das mensagens utópicas e visar à sua realização, renovando assim o imenso projeto dos movimentos ideológicos: transformar o desejo, o projeto, o sonho, em realidades vividas.

*Ideologias, Conflitos e Poder, de Pierre Ansart; Rio de Janeiro; Zahar Editores; 1978.

2 comentários:

Anônimo disse...

Jean-Paul Sartre:

"Sempre temos razão em nos revoltarmos"

Wagner H. Ramos disse...

Muito bom o blog, apoio o voto nulo sempre, estamos ai juntos pro que der e vier, chega de corrupção,,, vamos nos unir . ps