"O anarquismo defende a possibilidade de organização sem disciplina, temor ou punição, e sem a pressão da riqueza."

emma goldman

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2012/05/16

indicação de leitura





KROPOTKIN, Piotr. Ajuda Mútua: um fator de evolução.  272 páginas. Tradução Waldyr Azevedo Jr. Ed. A Senhora: São Sebastião. 2009.

Ajuda mútua a essas alturas do campeonato? 


Mais oportuna, impossível: no precipício em que estamos caindo, temos de nos agarrar às raízes da sociabilidade - o apoio, a proteção e a curtição mútuos; as intrigas da oposição é que nos convenceram de que somos todos tão egoístas e violentos que, sem o Estado – sem um grupo organizado para nos extorquir e intimidar – nós nos exterminaríamos em pouco tempo. Já a Igreja, como Kropotkin lembra neste livro, sempre fez questão de frisar que a bondade do ser humano não é uma coisa natural, é uma expressão do sobrenatural. Mas qual de nós não é capaz de se lembrar de uma mão estendida num momento difícil? 

Ajuda mútua continua sendo um livro para a gente ler de joelhos – pelo bálsamo que é uma visão de mundo diferente daquele brutal universo hobbesiano de cada um contra todos, pelas esperanças que reacende – o futuro, se houver, será solidário.

Ajuda mútua
 (Piotr Kropotkin)

272 páginas



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2012/03/05

extraindo conceitos


terça-feira, 18 de agosto de 2011

Matildes Regina Pizzio Tomasi[1]


“Defensor da igualdade, falarei sem ódio nem cólera, com a independência própria do filósofo, com a calma e a segurança do homem livre. Pudesse eu, nesta luta solene, levar a todos os corações a luz que me ilumina e mostrar, pelo êxito do meu discurso, que se a igualdade não pôde vencer pela espada é porque deve vencer pela palavra!”
 (Proudhon)


Nas diferentes fases da história sempre vimos alguns povos se sobrepondo a outros, exercendo domínio e destruindo culturas. Atualmente não é diferente, ainda vemos as grandes potências econômicas interferindo e estabelecendo regras para o modo de produção nas diversas Nações Mundiais. Portanto, continuam dominando e subjugando os mais fracos. Para barrar esta inversão de valores, na qual os menos esclarecidos acabam por legitimar e ceder soberania às culturas imperialistas acredita-se em uma educação libertária, na qual o sujeito possa reconhecer-se como indivíduo autônomo e senhor de sua própria vontade.

Inicialmente é necessário descontruir falsas ideias e conceitos pré-estabelecidos que tomem como verdade, por conta de uma educação direcionada a criar cidadãos obedientes e limitados aos padrões de uma sociedade individualista. Precisamos abolir toda e qualquer instituição que condiciona o indivíduo, rejeitando os seus valores e princípios e criar uma nova forma de ver a realidade na qual estamos atuando. Até que ponto as nossas atitudes são decorrentes de nossa vontade ou daquilo que é esperado de nós? Somos realmente livres e donos de nossos desejos ou marionetes do capitalismo? Autores como Kropotkin e Proudhon são referenciais e esclarecedores a estas questões. Pois eles apresentam teorias que contradizem o sistema individualista e desenvolvimentista do qual estamos inseridos.

Para Kropotkin a sobrevivência de toda e qualquer espécie, seja no reino animal ou vegetal, inclusive a humanidade, se deu através da ajuda mútua. Por se ajudarem mutuamente as espécies criaram condições adequadas para resistirem a intempéries da natureza e aos ataques de animais ferozes. Que o instinto natural do ser humano é de solidariedade e fraternidade, sentindo-se melhor quando pode ajudar o próximo e contribuir para que o mesmo possa estar numa situação mais confortável. Apresenta estudos de pequenas comunidades na Europa e na Rússia, nas quais algumas famílias se organizaram em forma de mutirão, para atenderem as necessidades do coletivo a até mesmo as individuais. Tornando-se autossuficientes e capazes de coordenarem os trabalhos coletivamente para o bem comum da sociedade, inclusive atividades que seriam de responsabilidade do Estado, como manutenção de praças, pontes, estradas. Cita também como exemplo as grandes Catedrais Medievais, como obra de uma comunidade na qual todos participaram de alguma forma para a realização da mesma. Observamos que durante idade média, as obras de arte não eram assinadas por pertencerem à comunidade. O hábito de assinar as obras ocorreu no alvorecer da modernidade, quando o homem antecipa algumas das características modernas, o individualismo.

Para Proudhon a natureza humana é constituída de uma força embrutecida e dominadora, a qual precisa ser exercida e testada. Que o primeiro combate do homem foi com a natureza, por oferecer as condições ideais para testar sua coragem, paciência, virtude e o desprezo pela morte. Assim, segue por toda a história, sempre criando situações de guerra, pois a guerra atribui um sentido de justiça ao vencedor, ou seja, ele tem direitos sobre os vencidos. Ações que legitimam a guerra, a escravidão e o poder. Quando se apropria do poder, o homem, usa e abusa, cria uma série de medidas possíveis de garantir o sucesso e a continuidade do mesmoConstituem-se formas de governo com a finalidade de manter a ordem na sociedade, consagrando e santificando a obediência, tornando-se absoluto e intransferível.

O governo tem nas mãos tudo o que vai e vem, o que se produz e se consome todos os negócios dos particulares, das comunas e dos departamentos; ele mantém a tendência da sociedade em direção ao pauperismo das massas, à subalternização dos trabalhadores e à preponderância sempre maior das funções parasitárias. Pela polícia, ele vigia os adversários do sistema; pelo exército ele os destroça; pela instrução pública ele distribui, na proporção que lhe convém, o saber e a ignorância; pelos cultos ele adormece o protesto no fundo dos corações; pelas finanças ele paga, em prejuízo dos trabalhadores, os custos dessa vasta conjuração. (PROUDHON, 1979, p. 54).

Para Proudhon as práticas de governo estão fundamentadas nos seguintes princípios: na perversidade original da natureza humana; na desigualdade essencial das condições; na perpetuação do antagonismo e da guerra; na fatalidade da miséria. Pois o governo, enquanto Estado e coordenador de todas as atividades humanas, apropria-se de tudo o que lhe convém, inclusive das instituições de ensino, controlando-as para que os saberes sejam mantidos como uma forma de poder restrito a um pequeno e seleto grupo de intelectuais. O que proudhon mais questiona e se posiciona contra é o princípio de autoridade e diz que é impossível que haja qualquer forma de governo sem a autoridade, pois a autoridade é o próprio governo em exercício, e para abolir um é preciso abolir o outro.

Kropotkin defende que precisamos fazer uma revolução de costumes e valores. Afirma também que ninguém pode ser dono de nada, pois todas as riquezas do mundo foram adquiridas e construídas com o esforço de muitos. Até mesmo os conhecimentos tecnológicos e científicos pertencem à humanidade, porque enquanto alguns tinham tempo livre para se dedicarem a o estudo, muitos trabalharam para sustentá-lo. E que enquanto alguns enriquecem, a grande maioria se encontra em situação de pobreza e miséria. E que é possível sim, criar uma sociedade onde todos possam trabalhar pelo bem comum e compartilhar as riquezas conquistadas. De acordo com os seus cálculos, cada pessoa precisaria trabalhar 4 horas por dia num período máximo de 25 anos, para suprir todas as suas necessidades, não precisará trabalhar para produzir excedente e nem para alimentar a máquina pública em seus diversos setores burocráticos. O que lhe daria tempo livre para se dedicar as atividades que julgar prazerosas ou ampliar seus conhecimentos nas áreas de seu interesse.

Portanto para que o homem possa exercer sua liberdade, precisa livrar-se destas instituições enganadoras, que prometem coisas que jamais irá cumprir. A Igreja promete salvação e vida eterna; a Escola promete conhecimento, que jamais teremos, pois, está regulamentado pelo Estado e tem a função de disciplinar e educar as crianças para se tornarem cidadãos obedientes e contribuintes; O Estado por sua vez promete proteção e garantia de direitos; o Capitalismo que promete a realização de todos os sonhos. Porém todas estas formas de sedução contém dentro de si o princípio da autoridade. Elas sempre negarão a liberdade e a igualdade, farão com que os homens se digladiem para tomar o poder e permanecer no comando.  Jamais obedecerão aos princípios de justiça, pois estes foram modificados, para criar o direito à propriedade.



Referências Bibliográficas:

KROPOTKIN, Piotr. Ajuda Mútua: um fator de evolução.  Tradução Waldyr Azevedo Jr. Ed. A Senhora: São Sebastião. 2009.

KROPOTKIN, Piotr. A conquista do pão.  CEL – Célula de Entretenimento Libertário - célula BPI – Biblioteca Pública Independente. 2006.

AVELINO, Gilvanildo Oliveira. Anarquismos e governamentalidade. PUC-SP. São Paulo; 2008.



[1] Acadêmica do 4º semestre do curso de Licenciatura em História da UFFS/ Campus Erechim - 2011
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in: 


terça-feira, 18 de agosto de 2011

2010/04/22

extraindo conceitos__45



[...]

É justa a [pena de] morte, é justo o presídio?

Consegue-se com isso o duplo fim que se trata obter: impedir que o ato anti-social se repita e transformar melhor o homem o qual se fizera culpável de um ato de violência contra seu semelhante?

E, para concluir, o que significa a palavra culpável, com tanta frequência empregada, sem que até hoje se tenha tentado dizer no que consiste a culpa?

[...]

Grandes são estas questões, as quais encerram em si a fortuna, não apenas as centenas de milhares de detentos que neste momento gemem nas nossas prisões; a sorte, não apenas das mulheres e crianças que soluçam na mesma miséria desde que o chefe da família fora encerrado num calabouço, senão também a fortuna e a sorte de toda a humanidade. Toda injustiça cometida contra o indivíduo, é em última instância sentida por toda a humanidade...

[...]

Em uma palavra, as causas fisiológicas, das que tanto temos falado nestes últimos tempos, não são das que menos contribuem para fazer com que o indivíduo seja conduzido à prisão. Mas, estas não são causas de criminalidade propriamente dita, como tratam de transformá-las os criminalistas da escola de Lombroso.

Estas causas, melhor dito, estas afeições do cérebro, do coração, do fígado, etc., trabalham constantemente em todos nós. A imensa maioria dos seres humanos tem alguma das doenças mencionadas, mas estas doenças não levam o homem a cometer um ato anti-social senão quando circunstâncias exteriores dão esse giro mórbido ao caráter.

As prisões não curam as as aflições fisiológicas; o que faz é agravá-las. E quando um de tais doentes sai da prisão ou do presídio, é ainda menos propício para a vida em sociedade que quando entrara; sente-se todavia mais inclinado a cometer atos anti-sociais.

Para impedir tal efeito, será necessário abrandá-lo de todo o dano que causara a prisão; apagar toda a massa de qualidades anti-sociais que lhe inculcara o presídio. Tudo isto pode ser feito, pode tentar-se pelo menos. Mas então, porque começar por transformar o homem em pior do que era, se, com o tempo, será necessário destruir a influência da prisão?

[...]

O individualismo ilimitado substituiu o comunismo da antiguidade franco-saxona. Mas voltaremos a ele. E outra vez, os espíritos mais inteligentes de nosso século - trabalhadores e pensadores - proclamam em voz alta que a sociedade inteira é responsável por todo ato anti-social cometida no seu seio. Temos nossa parte de glória nos atos e nas reproduções de nossos heróis e de nossos gênios. Temos também nos atos de nossos assassinos.

De ano em ano, milhares de crianças crescem na sujeira moral e material de nossas cidade, entre uma população desmoralizada pela vida cotidiana, frente à podridão e vadiagem, junto com a luxúria que inunda nossa grandes populações.

Não sabem o que é a casa paterna: a sua casa hoje é uma cova, amanhã será a rua. Entram na vida sem conhecer um emprego razoável de suas jovens forças. O filho de um selvagem aprende a caçar ao lado de seu pai; sua filha aprende a manter em ordem a mísera cabana.

Nada disso existe hoje para o filho do proletário que vive num córrego. Pela manhã, o pai e a mãe saem da casinha em busca de trabalho. A criança fica na rua, não aprende nenhum ofício, e se vai para escola, nela não lhe ensinam nada de útil.

[...]

O que nos surpreende é a profunidade dos sentimentos sociais da humanidade de nosso século, a honra que reina na viela mais asquerosa. Sem isso, o número dos que declaram a guerra às instituições sociais seria muito maior. Sem essa honra, sem essa aversão à violência, não restaria pedra sobre pedra dos suntuosos palácios de nossas cidades.

[...]

Quando existem bairros inteiros nos que cada casa lembra a um que o homem continua sendo animal, ainda quando oculte a sua animalidade baixo certo aspecto; quando o lema é Enriqueça!

[...]

A sociedade mesma fabrica diariamente esses seres incapazes de levar uma vida honrada de trabalho, esses seres imbuidos de sentimentos anti-sociais. E até glorifica-os quando seus crimes vêem-se coroados pelo êxito, enviando-lhes ao cadafalso ou ao presídio quando fizeram mal.

[...]

Quando a revolução tenha completamente modificado as relações do Capital e do Trabalho. quando não exista preguiçosos e todos trabalhemos, segundo nossas inclinações, em proveito da comunidade, quando a criança tenha sido ensinada a trabalhar com seus braços, a amar o trabalho manual, enquanto o seu cérebro e seu coração adquiram o desenvolvimento normal, não necessitaremso nem prisões, nem carrascos, nem juízes.


O homem é um resultado do meio em que cresce e passa a vida...

Acostume-se ao trabalho desde a sua infância; acostume-se a considerar-se como uma parte da humanidade. acostume-se a compreender que nessa imensa família, não se pode fazer mal a ninguém sem sentir em si mesmo os resultados da sua ação; que o amor e os grandes gozos - os maiores e duradouros - que nos trazem a arte e a ciência sejam para ele uma necessidade, e certíssimos estai de que então haverá muitos poucos casos nos que as leis da moralidade inscritas no coração de todos, sejam violadas.

As duas terceiras partes dos homens hoje condenados como criminosos cometeram atentados contra a propriedade. Estes desaparecerão com a propriedade individual. Com respeito aos atos de violência contra as pessoas, já vão diminuindo conforme aumenta a sociabilidade, e desaparecerão quando nos encontremos com as causas ao invés de enfrentar-nos com os efeitos.


Certo é que em cada sociedade, por mais bem organizada que seja, haverão alguns indivíduos de paixões mais intensas, e que esses indivíduos se verão de quando em quando impulsionados a cometer atos anti-sociais.

Mas, isto pode impedir-se, dando melhor direção àquelas paixões. Na atualidade, vivemos demasiado isolados. O individualismo proprietário - essa muralha do indivíduo contra o Estado - nos tem conduzido a um individualismo egoísta em todas as nossas relações mútuas.

Apenas nos conhecemos; não nos encontramos senão ocasionalmente; nossos pontos de contato são excessivamente raros.

Mas, temos visto na história, e seguimos vendo-os, exemplos de uma vida comum mais intimamente ligada.

A família composta, na China, e as comunidades agrárias, são exemplos em apoio sobre o que foi dito. Ali, os homens se conhecem uns aos outros. Por força das coisas, encontram-se obrigados a ajudar-se mutuamente em ordens moral e material.

A velha família baseada na comunidade de origem, desaparece. Nesta família, os homens se verão obrigados a conhecer-se e ajudar-se, a apoiar-se moralmente em toda ocasião. E este apoio neutro bastará para impedir a massa de atos anti-sociais que hoje se cometem.

[...]

Resumo.

A prisão não impede que os atos anti-sociais sejam produzidos; pelo contrário, aumenta o seu número. Não melhora os que vão parar nela. Reforme-a quanto queira, sempre será uma privação de liberdade, um meio fictício como o convento, que torna o prisioneiro cada vez menos próprio para a vida em sociedade.

Não consegue o que propõe. Mancha a sociedade. Deve desaparecer.

É um resto de barbárie, misturado com filantropismo jesuítico; e o primeiro dever da Revolução será derrubar as prisões; esse monumentos da hipocrisia da vileza humana. Em uma sociedade de iguais, em um meio de homens livres, todos os quais trabalhem para todos, todos os quais tenham recebido uma sã educação e se sustentem mutuamente em todas as circunstâncias da sua vida, os atos anti-sociais não poderão produzir-se.

O grande número não terá razão de ser, e o resto será afogado no germén. E com respeito aos indivíduos de inclinações perversas que a sociedade atual nos deixe como legado, dever nosso será impedir que se desenvolvam os seus maus instintos. E se não o conseguimos, o corretivo honrado e prático será sempre o trato fraternal, o sustento moral, que encontrarão da parte de todos, a liberdade.

Isto não é utopia; isto já se faz com indivíduos isolados, e isto há de tornar-se prática geral. E tais meios serão mais poderosos que todos os códigos, que todo o atual sistema de castigos, essa fonte sempre fecunda em novos atos anti-sociais, de novos crimes.

texto na integra:


2010/02/02

extraindo conceitos__21


Numa conferência realizada em Paris em 1887, Kropotkin aborda um dos temas centrais da sociedade atual que, depois das questões econômica e política, é a mais importante: a questão judicial

A pergunta a que ele pretende responder é: o que se deve fazer com aqueles que cometem atos anti-sociais? Condenação à morte, trabalhos forçados, prisão perpétua? A máquina judicial povoa as prisões.

No entanto – e aqui os dados de Kropotkin são do século passado [XIX], cuja semelhança com os atuais [XX] é chocante – a única certeza que a administração carcerária tem é a da reincidência no crime, pois o aumento ou a diminuição da pena não contribuem para que os índices de criminalidade decresçam.

É a partir dessa constatação que Kropotkin argumenta que nada pode ser reformado no sistema penitenciario: a prisão, ao tirar a liberdade do homem e matar a sociabilidade que o capacita a viver em sociedade, só faz fabricar o criminoso reincidente.

A pretexto de “reeducar” o criminoso, o regime carcerário de fato degrada, de várias formas, o prisioneiro. Também não se trata de vigiar os guardas ou escolher para diretores dos presídios pessoas realmentes “sérias”, pois o universo da prisão também é uma espécie de sentença para esses indivíduos.

Como as prisões demonstraram serem incapazes de resolver o problema dos crimes, para Kropotkin cabe sim buscar suas causas, e elas são de responsabilidade social: a miséria, odesemprego, a desorganização familiar. O capitalismo, que cultiva o desprezo ao trabalho manual e cultua o deus-capital, cria personalidades anti-sociais, pessoas que querem viver às custas de outras que as mantenham. Os criminosos “bem-sucedidos” são glorificados. Os que “fracassam” na “carreira” é que serão trancafiados nas prisões.

Não é à toa que a maioria dos crimes, nesta sociedade fundada na propriedade dos bens por poucos e na expropriação de muitos, são contra a propriedade.

A minoria deles, que atigem a pessoa humana enquanto indivíduo, com o desenvolvimento de relações sociais fundadas na cooperação, apoio mútuo e respeito ao próximo tenderão fatalmente a decair e até mesmo a desaparecer.

As instituições presidiárias representam apenas uma solução de compromisso entre a nossão bíblica de vingança, do Velho Testamento, a noção medieval de existência de uma vontade diabólica geradora do crime e a noção moderna de evitar o crime pelo castigo. Esse termo aparece transfigurado como “reeducação” ou “reintegração”, alteração filológica e não filosófica.

A pena de morte, por sua vez, é apontada por alguns como solução para a reincidência criminosa de pessoas que cometeram homicídio ou atentaram contra a propriedade privada. No entanto, quando a pena de morte, na sociedade capitalista atingiu um banqueiro, um industrial ou um financista?

Assim como o hospital psiquiátrico é um depósito de pobres, o presídio também o é. Sua função, muito longe de ser a de “reintegrar”, é a de estigmatizar. Para que tanto trabalho e custos para apenas garantir a boa consciência das várias frações da classe dominante? Do mesmo modo que a prostituição é a condição do casamento monogâmico, a existência do estigma criminal é a condição da boa consciência da burguesia e da pequena burguesia das grandes cidades.

Para Kropotkin, nem as prisões nem a pena de morte – um assassinato legal – diminuíram o número de crimes. Para ele, só o apoio humano fraterno àqueles que, por motivos os mais variados, venham a passar por um processo de desestruturação situacional, só a liberdade para que o indivíduo possa demonstrar suas potencialidades, criatividade e humanidade são remédios contra o crime.

Num mundo como o capitalista, governado pela mercadoria, onde não só o trabalho é uma delas, mas a própria personalidade humana se converte numa mercadoria, esses remédios são esmagados.

Caso haja no contingente de presidiários aqueles que possuem problemas psíquicos, nada mais certo que receberem atenção adequada dos especialistas e atenção solidária da comunidade.

Uma sociedade livre não necessita de depósitos de seres humanos segregados. A segregação é o grande crime contra a pessoa, a fonte de todas as perversões, delinqüências e deformações psíquicas.

Não é por acaso que os hospitais psiquiátricos tradicionais, que os colégios internos, conventos e prisões fechadas são incompatíveis com uma sociedade igualitária e libertária.

Infelizmente, constituem o cartão de visita de sociedades fundadas na exploração e na opressão do homem pelo homem.

In:

Texto copilado da "apresentação" ao livro KROPOTKIN (textos escolhidos); Biblioteca Anarquista; Seleção de Maurício Tragtenberg; L&PM Editores; 1987.